Durante muito tempo tratámos aquilo que acontecia nas redes sociais como se pertencesse a uma espécie de mundo paralelo. Havia a vida real e havia a internet. Essa distinção hoje já não faz grande sentido.
Para uma criança ou um adolescente, o que acontece num ecrã faz parte da vida. É ali que conversa com amigos, vê vídeos, procura informação, descobre música, constrói referências, conhece pessoas e começa também a formar opiniões sobre o mundo.
O problema não está na tecnologia em si. Está na forma como construímos os ambientes digitais onde os mais novos passam uma parte cada vez maior do seu tempo.
Quando uma criança é repetidamente exposta a discursos xenófobos, misoginia, violência, teorias da conspiração, conteúdos que promovem distúrbios alimentares ou automutilação, não podemos concluir que essa exposição determina automaticamente aquilo em que ela se vai tornar. As pessoas são mais complexas do que isso. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que os efeitos da tecnologia no bem-estar dos jovens não são iguais para todos e dependem de fatores individuais, familiares e sociais. Mas também alerta para o facto de os jovens mais vulneráveis poderem sofrer consequências negativas de forma desproporcionada.
Há, no entanto, uma diferença importante em relação à televisão, aos livros ou mesmo à internet que conhecemos há vinte anos. Hoje não escolhemos apenas aquilo que vemos. Aquilo que vemos também é escolhido para nós.
Os sistemas de recomendação observam comportamentos, registam quanto tempo permanecemos num conteúdo, aquilo em que clicamos, o que partilhamos e o que ignoramos. A partir daí decidem o que nos mostrar a seguir. A Comissão Europeia reconhece que estes sistemas podem aumentar o risco de os menores encontrarem conteúdos nocivos e entrarem numa sucessão de recomendações semelhantes.
É neste ponto que a questão deixa de ser apenas familiar e passa a ser também política, educativa e social.
Não podemos pedir a uma criança de 13 anos que enfrente sozinha sistemas desenvolvidos por algumas das empresas tecnologicamente mais sofisticadas do mundo. Também não é razoável entregar toda essa responsabilidade aos pais, como se cada família pudesse saber permanentemente o que acontece em cada aplicação, jogo, plataforma ou grupo de mensagens.
O Estado tem responsabilidades claras. Uma delas é regular e fiscalizar. Na União Europeia já existe o Regulamento dos Serviços Digitais, o Digital Services Act, que impõe obrigações específicas às plataformas na proteção de menores. As orientações europeias publicadas em 2025 incluem medidas sobre sistemas de recomendação, contas privadas por defeito e funcionalidades concebidas para prolongar excessivamente o tempo de utilização. Em Portugal, cabe à ANACOM desempenhar as funções de Coordenador dos Serviços Digitais.
Mas criar regras não chega. É preciso perceber se são cumpridas. É necessário exigir transparência às plataformas, permitir que investigadores independentes estudem o funcionamento destes sistemas e conhecer melhor os caminhos que levam determinados conteúdos até aos menores.
Há uma indústria inteira a estudar como captar e manter a nossa atenção. O interesse público não pode estar permanentemente alguns passos atrás.
A escola tem igualmente um papel que ainda estamos a definir. Durante anos falámos de literacia digital quase como sinónimo de saber utilizar um computador. Hoje isso é manifestamente insuficiente. Uma criança pode saber editar um vídeo, fazer uma apresentação ou utilizar inteligência artificial e não ter a mínima ideia de por que razão determinado conteúdo apareceu no seu telefone.
Literacia digital também é saber fazer perguntas. Porque estou a ver isto? Quem produziu este conteúdo? O que pretende de mim? Porque começou a aparecer tantas vezes? Que informação sobre mim está a ser utilizada? Esta imagem é verdadeira? Esta pessoa existe? Estou perante informação, publicidade, propaganda ou tentativa de manipulação?
Estas perguntas deveriam fazer parte da educação de qualquer jovem que utiliza a internet.
Há outra aprendizagem que talvez seja ainda mais importante: aprender a discordar. Uma sociedade menos polarizada não se constrói impedindo os jovens de contactar com opiniões de que não gostamos. Constrói se ensinando a distinguir uma opinião de um facto, uma discussão de uma agressão e alguém que pensa de maneira diferente de alguém que deve ser tratado como inimigo.
Essa aprendizagem acontece na escola, mas começa em casa.
As famílias não precisam de conhecer todas as aplicações que aparecem nem de vigiar permanentemente os telemóveis dos filhos. Precisam, isso sim, de continuar presentes. Perguntar a um adolescente aquilo que vê online pode ser mais útil do que saber apenas quantas horas passou ao telefone. Perceber quem segue, o que o irrita, o que o faz rir ou quais são os vídeos de que toda a turma fala permite entrar num universo que muitas vezes permanece completamente invisível aos adultos.
A sociedade civil também tem responsabilidades. Associações juvenis, clubes, organizações culturais e desportivas, escolas, autarquias e comunidades locais podem oferecer uma coisa que nenhum regulamento consegue impor: pertença.
Este ponto é particularmente importante porque muitos grupos extremistas perceberam há muito tempo que as pessoas não procuram apenas ideias. Procuram identidade, reconhecimento e um grupo onde sintam que são importantes. Um jovem isolado ou revoltado pode encontrar online uma comunidade que aparentemente o compreende e que, pouco a pouco, lhe oferece também uma explicação para tudo aquilo que considera errado na sua vida. Muitas vezes essa explicação acaba por precisar de um culpado.
Não se combate isto apenas apagando publicações. É preciso garantir que existem espaços reais onde os jovens possam participar, ser ouvidos, discordar e sentir que pertencem a alguma coisa sem precisarem de odiar alguém para serem aceites.
Também é importante não transformar esta discussão numa cruzada contra a tecnologia. A internet abriu possibilidades extraordinárias de acesso ao conhecimento, comunicação, criatividade e participação. A inteligência artificial continuará a desenvolver se e fará parte da educação, do trabalho e da vida quotidiana destas gerações.
A questão é perceber ao serviço de quem colocamos essa tecnologia.
Se os sistemas digitais forem construídos sobretudo para maximizar atenção, tempo de utilização e receita publicitária, é natural que aquilo que nos prende ao ecrã tenha vantagem sobre aquilo que simplesmente nos faz bem. E há emoções particularmente eficazes nesse jogo. A raiva, o medo, a indignação e o escândalo conseguem manter uma pessoa ligada durante muito tempo.
Uma democracia não pode funcionar segundo a mesma lógica de um feed.
Precisamos de recuperar espaços onde seja possível mudar de opinião sem ser humilhado, reconhecer que estávamos errados, discutir sem transformar imediatamente o outro num inimigo e aceitar que uma pessoa é bastante mais do que a opinião mais infeliz que alguma vez publicou.
Proteger crianças e adolescentes não significa construir uma internet esterilizada onde alguém decide previamente tudo aquilo que podem ver ou pensar. Isso seria substituir um problema por outro. O objetivo deve ser prepará-los para navegar num mundo onde encontrarão ideias diferentes, informação falsa, conteúdos perturbadores, publicidade disfarçada e tentativas de manipulação.
Queremos que sejam capazes de reconhecer tudo isso e, depois, fazer as suas próprias escolhas.
Só que liberdade também exige condições para poder ser exercida. Uma criança colocada diante de um sistema que conhece os seus hábitos, mede as suas reações e aprende rapidamente aquilo que consegue captar a sua atenção não está propriamente numa relação entre iguais.
É por isso que este problema não pode ser entregue apenas aos pais, às escolas ou às plataformas. O Estado tem de regular e fiscalizar. As empresas têm de responder pelos sistemas que desenvolvem. As escolas precisam de ensinar muito mais do que competências técnicas. As famílias precisam de continuar dentro da conversa. E a sociedade precisa de oferecer aos jovens espaços de pertença fora do ecrã.
A tecnologia vai continuar a mudar. As plataformas que hoje dominam provavelmente serão substituídas por outras. A inteligência artificial estará cada vez mais presente e os sistemas de recomendação tornar-se-ão mais sofisticados.
Não vale a pena tentar impedir esse futuro.
Vale a pena garantir que, quando ele chegar, os nossos filhos continuam a ser capazes de pensar e escolher por si próprios, em vez de serem apenas utilizadores cada vez mais fáceis de conhecer, prever e influenciar.