Centenário do artista Artur Bual

Centenário do artista Artur Bual

Centenário do artista Artur Bual

23 Setembro 2026, Quarta-feira
Militante da justiça e direitos humanos

​”O trabalho do artista tem de ser livre, porque os artistas são ‘habitados’, nem que seja por uma visão ‘pessoalíssima’ e Artur Bual transmitiu uma visão ‘pessoalíssima’ sobre Jesus. Na sua liberdade, os artistas transmitem visões novas, ajudam a desconstruir lugares-comuns”.

Cardeal José Tolentino de Mendonça

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Recentemente, tive a alegria e a satisfação de visitar, na Amadora, duas exposições integradas nas comemorações do centenário do nascimento de Artur Bual: “O Amor é Redondo”, na Galeria Municipal Artur Bual, e “Outras Fronteiras”, nos Paços do Concelho da Câmara Municipal da Amadora.

Foi uma visita que teve para mim um significado especial, não apenas pelas obras que pude contemplar, mas também pela forma como as exposições nos foram apresentadas. Tive o privilégio de ser acompanhado por Joaquim Franco, comissário das exposições comemorativas do centenário de Artur Bual, e por Maria João Bual, filha do artista. Ouvir um grande conhecedor da obra de Bual e, ao mesmo tempo, escutar a filha falar do pai, acrescentou uma dimensão humana à visita que dificilmente uma simples observação das obras poderia proporcionar.

Gosto da pintura de Artur Bual precisamente porque ela não parece querer pedir licença. Há nela irreverência, liberdade, força e uma extraordinária capacidade de misturar cores, formas e sentimentos. É uma pintura que não se limita a ser observada. Interpela-nos, fazendo-nos parar e reflectir. 

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E é nos seus Cristos que essa dimensão mais me toca.

Não vejo apenas figuras de Cristo pintadas sobre uma tela. Vejo sofrimento, humanidade, silêncio, esperança e, sobretudo, uma procura de transcendência. As cores, por vezes violentas, quase parecem carregar consigo a dor humana, mas também uma possibilidade de redenção.

O que mais me fascina é a capacidade de Bual partir da matéria, da cor e do gesto para nos conduzir para algo que está para além da própria pintura.

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É impossível olhar para aqueles Cristos apenas como obras de arte. Há qualquer coisa neles que me interpela de uma forma diferente. Talvez porque o Cristo que Bual nos apresenta não seja um Cristo distante, perfeito e intocável. É um Cristo que parece carregar consigo as marcas da condição humana, a dor, a fragilidade e o sofrimento, mas que, precisamente por isso, aponta para uma realidade que não termina na cruz.

Há sofrimento, mas há também transcendência. Há morte, mas permanece a esperança.

E talvez uma das grandes forças da arte seja conseguir dizer aquilo que muitas vezes as palavras não conseguem explicar.

A visita às duas exposições deixou-me também com uma enorme admiração pelo trabalho que está a ser desenvolvido para preservar e divulgar a memória de Artur Bual. Celebrar cem anos do nascimento de um artista não é apenas olhar para o passado, é permitir que a sua obra continue a dialogar com o presente e, sobretudo, com as novas gerações.

Saí da Amadora com a sensação de ter encontrado não apenas um grande pintor, mas um artista que continua a provocar, a inquietar e a interrogar quem olha para a sua obra. E isso, para mim, é um dos maiores sinais de que uma obra permanece viva.

Artur Bual pintou com as mãos, com a cor e com a irreverência. Mas, em muitos dos seus Cristos, sinto que tentou pintar também aquilo que não se vê: a dor, a esperança, a fé e esse mistério maior a que chamamos transcendência.

Foi uma visita que me deu alegria e satisfação, pelas obras, pelo encontro, pela memória de Bual e pela possibilidade de, através da sua pintura, continuar a procurar aquilo que está para além do que os nossos olhos conseguem alcançar.

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