Quando Camões (c. 1520-c. 1580) publicou “Os Lusíadas” (1572), a sua intenção não foi apenas a de glorificar os participantes na viagem inaugural da carreira da Índia, mas também dar voz aos que a contestaram (caso do Velho do Restelo) e às tragédias marítimas posteriormente surgidas (anunciadas pelo Adamastor). Se, através do Velho do Restelo, o leitor assiste à praga rogada — “Ó maldito o primeiro que no mundo / Nas ondas velas pôs em seco lenho!” (canto IV) —, as profecias trágicas da figura disforme assentam no que nos foi revelado pelas relações dos naufrágios acontecidos a partir de 1552 (ate 1602), depois reunidas nessa obra fabulosa que é a “História Trágico-Marítima” (publicada em 1735 e em 1736), organizada por Bernardo Gomes de Brito (1688-1759) — de que também há versões adaptadas, como a organizada por António Sérgio em 1934, que tem tido sucessivas edições.
A vivência sofrida e assustadora do mar tem marcas universais e perdurou no tempo, tendo a literatura (e outras artes) tido um papel importante na expressão desse sentimento, como podemos ver em alguns exemplos que nos são cronologicamente mais próximos.
Em 12 de Setembro de 1948, Vergílio Ferreira (1916-1996), perante o mar da Nazaré, escrevia no seu diário: “Cá está o mar, o bruto. Estende-se ao comprido, esbarrondado, ronca e baba-se sobre a areia. Pequenos barcos, traquinas, sobem-lhe para o lombo, catam-lhe o peixe — ele dorme. Tem os olhos grandes cerrados, a arca do peito arfa. Não entende ninguém, ninguém o compreende. Estúpido, cavernoso, está para ali. Até que um dia, sem razão, firma-se nas quatro patas, urra temeroso e atira-se às marradas contra tudo. Depois, outra vez sem razão, abate amodorrado, torna a roncar e a dormir. De noite, a lua veio passar-lhe uma carícia de mãos pelo dorso. A besta, indiferente, rosnou sempre. Cava-lhe as entranhas uma boçalidade de pasmo. Anda a alegria em volta dele, crianças deitam-lhe quimeras de inocência — e o bruto só ronca. Sinto naquele monstro a trágica desgraça da força imerecida, da força que apenas se justifica no urro e na marrada.” (em “Diário Inédito 1944-1949”, publicado em 2008).
A marca de bestialidade usada para caracterizar o mar pelo escritor natural de Melo é intensa no seu exagero, demonstrando a incapacidade do humano para domar as águas com segurança absoluta, os medos que podem surgir e o fascínio perante tal perigo. Duas décadas depois, em 1968, em entrevista à inglesa Tyne Tees Television, o pintor Lawrence Stephen Lowry (1887-1976) referia o mesmo poder avassalador do mar, usando a emoção e a antecipação do espanto: “Sempre adorei o mar: como ele é maravilhoso e, ao mesmo tempo, tão terrível. Muitas vezes penso: … e se, de repente, ele mudasse de ideia e a maré não recuasse? E se viesse na nossa direção? E, se não parasse e continuasse avançando, avançando, avançando, avançando, avançando… Seria o fim de tudo.”
Mais pragmático e de menos palavras perante a força do mar, demonstrando o respeito perante essa energia que pode ser desastrosa para o ser humano, é o discurso de Ti’ Bártolo, velho, experimentado e sábio lobo do mar, no romance “Mar Santo” (1952), história passada na Nazaré, de Branquinho da Fonseca (1905-1974), em que o mar reúne a ideia de traição e a marca do poder incomensurável: “O mar nã tem amigos… O mar!… Mata a gente e nã tem crime… O mar engana Cristo!… Sabes lá qu’ é o mar!… Ah, mar santo!…”
Este viver com o perigo e as dores do mar foi também cantado por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), quando escreveu “Vida do Mar” (em “Para a Luz”, de 1904), lembrando o que sentia quando, à tarde, passeava ao longo do mar: “E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas, / Entre as rochas que estão de espuma coroadas, / Tristes habitações de pobres pescadores… / Telhados pra abrigar soluços, ais e dores. / São choupanas onde há postigos e janelas, / Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas, / Navios onde vai ao leme a Saudade… / Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade…”
A expressão da dor trazida pelo mar, contrariando a ideia épica das viagens marítimas, tem expressão intensa no poema “Mar Português” que Fernando Pessoa (1888-1935) incluiu na sua “Mensagem” (única obra de poesia em português publicada em vida do poeta, no final de 1934), aí dando liberdade à emoção colectiva: “Ó Mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó Mar!” Esta metáfora das lágrimas seria também utilizada por Sebastião da Gama (1924-1952), ele próprio um leitor de Pessoa, no poema “Contribuição”, de 28 de Outubro de 1942 (apenas publicado em 2024, no volume de poesia reunida, “O inquieto verbo do mar”): “O Mar Oceano / anda a rolar, pela Praia, / as pragas dos pescadores… / E é cada gota de espuma / uma lágrima que caia / nas faces angustiadas das mulheres…”
O mar, visto frequentemente como o espaço de aventura e de liberdade, tem sido também o cenário do sofrimento e da dor, algo que o poeta Alexandre O’Neill (1924-1986), numa frase do domínio do apelo à prevenção que se tornou um quase provérbio, bem expressou quando disse que “há mar e mar, há ir e voltar”… sugerindo a cautela e a minimização da aventura, ou… o respeito pelo mar.