Mar sofrido

Mar sofrido

Mar sofrido

, Professor
23 Setembro 2026, Quarta-feira
Professor

Quando Camões (c. 1520-c. 1580) publicou “Os Lusíadas” (1572), a sua intenção não foi apenas a de glorificar os participantes na viagem inaugural da carreira da Índia, mas também dar voz aos que a contestaram (caso do Velho do Restelo) e às tragédias marítimas posteriormente surgidas (anunciadas pelo Adamastor). Se, através do Velho do Restelo, o leitor assiste à praga rogada — “Ó maldito o primeiro que no mundo / Nas ondas velas pôs em seco lenho!” (canto IV) —, as profecias trágicas da figura disforme assentam no que nos foi revelado pelas relações dos naufrágios acontecidos a partir de 1552 (ate 1602), depois reunidas nessa obra fabulosa que é a “História Trágico-Marítima” (publicada em 1735 e em 1736), organizada por Bernardo Gomes de Brito (1688-1759) — de que também há versões adaptadas, como a organizada por António Sérgio em 1934, que tem tido sucessivas edições.

A vivência sofrida e assustadora do mar tem marcas universais e perdurou no tempo, tendo a literatura (e outras artes) tido um papel importante na expressão desse sentimento, como podemos ver em alguns exemplos que nos são cronologicamente mais próximos.

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Em 12 de Setembro de 1948, Vergílio Ferreira (1916-1996), perante o mar da Nazaré, escrevia no seu diário: “Cá está o mar, o bruto. Estende-se ao comprido, esbarrondado, ronca e baba-se sobre a areia. Pequenos barcos, traquinas, sobem-lhe para o lombo, catam-lhe o peixe — ele dorme. Tem os olhos grandes cerrados, a arca do peito arfa. Não entende ninguém, ninguém o compreende. Estúpido, cavernoso, está para ali. Até que um dia, sem razão, firma-se nas quatro patas, urra temeroso e atira-se às marradas contra tudo. Depois, outra vez sem razão, abate amodorrado, torna a roncar e a dormir. De noite, a lua veio passar-lhe uma carícia de mãos pelo dorso. A besta, indiferente, rosnou sempre. Cava-lhe as entranhas uma boçalidade de pasmo. Anda a alegria em volta dele, crianças deitam-lhe quimeras de inocência — e o bruto só ronca. Sinto naquele monstro a trágica desgraça da força imerecida, da força que apenas se justifica no urro e na marrada.” (em “Diário Inédito 1944-1949”, publicado em 2008).

A marca de bestialidade usada para caracterizar o mar pelo escritor natural de Melo é intensa no seu exagero, demonstrando a incapacidade do humano para domar as águas com segurança absoluta, os medos que podem surgir e o fascínio perante tal perigo. Duas décadas depois, em 1968, em entrevista à inglesa Tyne Tees Television, o pintor Lawrence Stephen Lowry (1887-1976) referia o mesmo poder avassalador do mar, usando a emoção e a antecipação do espanto: “Sempre adorei o mar: como ele é maravilhoso e, ao mesmo tempo, tão terrível. Muitas vezes penso: … e se, de repente, ele mudasse de ideia e a maré não recuasse? E se viesse na nossa direção? E, se não parasse e continuasse avançando, avançando, avançando, avançando, avançando… Seria o fim de tudo.”

Mais pragmático e de menos palavras perante a força do mar, demonstrando o respeito perante essa energia que pode ser desastrosa para o ser humano, é o discurso de Ti’ Bártolo, velho, experimentado e sábio lobo do mar, no romance “Mar Santo” (1952), história passada na Nazaré, de Branquinho da Fonseca (1905-1974), em que o mar reúne a ideia de traição e a marca do poder incomensurável: “O mar nã tem amigos… O mar!… Mata a gente e nã tem crime… O mar engana Cristo!… Sabes lá qu’ é o mar!… Ah, mar santo!…”

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Este viver com o perigo e as dores do mar foi também cantado por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), quando escreveu “Vida do Mar” (em “Para a Luz”, de 1904), lembrando o que sentia quando, à tarde, passeava ao longo do mar: “E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas, / Entre as rochas que estão de espuma coroadas, / Tristes habitações de pobres pescadores… / Telhados pra abrigar soluços, ais e dores. / São choupanas onde há postigos e janelas, / Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas, / Navios onde vai ao leme a Saudade… / Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade…”

A expressão da dor trazida pelo mar, contrariando a ideia épica das viagens marítimas, tem expressão intensa no poema “Mar Português” que Fernando Pessoa (1888-1935) incluiu na sua “Mensagem” (única obra de poesia em português publicada em vida do poeta, no final de 1934), aí dando liberdade à emoção colectiva: “Ó Mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó Mar!” Esta metáfora das lágrimas seria também utilizada por Sebastião da Gama (1924-1952), ele próprio um leitor de Pessoa, no poema “Contribuição”, de 28 de Outubro de 1942 (apenas publicado em 2024, no volume de poesia reunida, “O inquieto verbo do mar”): “O Mar Oceano / anda a rolar, pela Praia, / as pragas dos pescadores… / E é cada gota de espuma / uma lágrima que caia / nas faces angustiadas das mulheres…”

O mar, visto frequentemente como o espaço de aventura e de liberdade, tem sido também o cenário do sofrimento e da dor, algo que o poeta Alexandre O’Neill (1924-1986), numa frase do domínio do apelo à prevenção que se tornou um quase provérbio, bem expressou quando disse que “há mar e mar, há ir e voltar”… sugerindo a cautela e a minimização da aventura, ou… o respeito pelo mar.

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