Imagina um supercomputador alimentado a triliões de dólares, arrefecido a água gelada em pavilhões estéreis num deserto qualquer. Ele consegue explicar-te a mecânica quântica, cruzar o histórico da bolsa de Tóquio desde 1980 e escrever-te um soneto em latim com a métrica imaculada. É um milagre da nossa era. Mas agora, faz este teste: pede-lhe para te explicar por que razão a estrada à porta da tua casa está cortada ao trânsito há três dias.
Silêncio. O oráculo é cego na esquina.
O lamento que ecoa hoje nas redações é fundamentalmente financeiro. Dizem os estudos que quase setenta por cento das pesquisas na internet já são “zero-click”. Tu perguntas ao Google ou ao Perplexity, a máquina lê mil jornais numa fração de segundo, dá-te a resposta mastigada no topo do ecrã e espeta lá o seu próprio anúncio. O leitor lê, dá-se por satisfeito e guarda o telemóvel no bolso. O site de notícias, que pagou o ordenado a quem investigou a história original, não recebe sequer a esmola de uma visita.

As tecnológicas ficaram com o dinheiro dos bilhetes sem terem pago a produção do filme.
Mas antes de sacarmos de lenços para chorar a morte da imprensa, convém olhar para o cadáver. O que a inteligência artificial está a aniquilar não é o jornalismo; é a sua inútil e barulhenta classe média. A notícia refrita. O resumo morno do debate no parlamento. A galeria de fotos reciclada. A peça inofensiva desenhada unicamente para te causar um pico de indignação e um clique num banner de colchões de espuma.
A máquina faz isso melhor, mais rápido e de graça. Não foi uma perda para a civilização. Era apenas ruído.
Ao vaporizar este meio-termo descartável, o algoritmo empurrou a sobrevivência da informação para os dois extremos onde o silício não consegue entrar. O primeiro é o pó da rua. A política de vão de escada, a adjudicação ruinosa, o que se murmura num passeio junto ao rio, enfim, hotnews. A máquina não tem atributos físicos e não bebe café com fontes.
O segundo extremo é a sombra. A inteligência artificial é absolutamente brilhante a ler três mil contratos públicos em menos de cinco minutos. Mas é um desastre absoluto a convencer um funcionário camarário aterrorizado a encontrar-se num parque de estacionamento escuro para entregar a pen-drive com provas de desfalque.
Os algoritmos processam dados. Só os humanos combinam confidências com raciocínio lógico e dedução científica.
Os jornais já não podem vender resumos esterilizados do mundo, porque o mundo já os tem à borla no ecrã. Para sobreviverem, vão ter de voltar a vender o que é escasso: o instinto, a sola de sapato gasta, a chuva na cara e o segredo sujo que a máquina ainda não indexou.
A inteligência artificial pode roubar a publicidade. Mas, pelo caminho, obriga os jornalistas a voltarem a ser jornalistas.”