“A memória é o tesouro e a guardiã de todas as coisas.” — Cícero
Há pessoas que deixam uma marca pela função que desempenharam. Outras deixam-na pela forma como dedicaram uma vida inteira a preservar aquilo que o tempo tende a apagar. Hélder Máximo Esdras Martins pertence a esse segundo grupo. Embora tenha nascido no Pinhal Novo, veio ainda criança para o Montijo, onde criou raízes e se assumiu sempre como um verdadeiro “montijense de coração”.
No Montijo bastava dizer “Hélder dos Brinquedos” para todos saberem de quem se falava.
Quem teve o privilégio de o conhecer recorda um homem simples, generoso e sempre disponível para partilhar conhecimento. Falava da sua coleção com o entusiasmo de quem não colecionava objetos, mas histórias. Cada brinquedo era uma memória resgatada ao tempo, uma pequena peça da identidade coletiva que fazia questão de preservar e transmitir.
Ao longo de mais de quatro décadas, reuniu um extraordinário espólio com mais de dez mil brinquedos nacionais e estrangeiros, alguns remontando aos séculos XVIII e XIX, transformando uma paixão pessoal num verdadeiro património cultural. Levou o nome do Montijo a exposições internacionais na Argentina, em Marrocos, em Londres e em Pequim, demonstrando que uma coleção privada pode assumir um valor público quando preserva a memória de um povo.
Os brinquedos nunca foram apenas brinquedos. Cada peça guardava uma história, um modo de viver, uma forma de brincar, um testemunho da criatividade e da indústria de outros tempos. Preservar esse espólio significa preservar uma parte da identidade coletiva do Montijo.
Foi precisamente essa convicção que levou o Grupo Municipal do PSD a apresentar, em 13 de fevereiro de 2026, uma recomendação à Assembleia Municipal, propondo a salvaguarda e valorização do espólio de Hélder, defendendo a criação de um núcleo expositivo permanente, a permanência da coleção no concelho e a sua integração numa estratégia cultural, educativa e turística. A iniciativa assentava numa ideia simples: não basta reconhecer o valor de um património; é necessário criar condições para o proteger antes que seja demasiado tarde.
Essa recomendação foi aprovada por unanimidade pela Assembleia Municipal do Montijo, demonstrando que, acima das diferenças políticas, houve um entendimento comum quanto à importância deste legado. Hoje, com o falecimento de Hélder, essa deliberação assume um significado ainda maior. O tempo da homenagem deve dar lugar ao tempo da concretização.
As cidades distinguem-se não apenas pelas obras que constroem, mas também pela memória que conseguem preservar. Um concelho que perde os seus testemunhos históricos perde inevitavelmente parte da sua identidade. Pelo contrário, quando protege aqueles que dedicaram a vida à cultura, à história e à preservação da memória coletiva, afirma-se como uma comunidade que respeita o seu passado e prepara o seu futuro.
A melhor homenagem que o Montijo poderá prestar a Hélder dos Brinquedos não será apenas recordar a sua dedicação ou aprovar votos de pesar. Será garantir que a coleção que reuniu com tanto esforço permanece no concelho, acessível às futuras gerações, como espaço de conhecimento, de educação e de identidade.
Porque os brinquedos que Hélder preservou nunca foram apenas brinquedos. São, hoje e sempre, parte da história do nosso concelho. E a memória continua a ser o maior tesouro de uma comunidade.