Festa do Avante com Ney Matogrosso

Festa do Avante com Ney Matogrosso

Festa do Avante com Ney Matogrosso

16 Setembro 2026, Quarta-feira
Militante da justiça e direitos humanos

Nunca tive qualquer ligação ao Partido Comunista. Até pelo contrário. No Barreiro, fui líder da Juventude Socialista durante vários anos e deputado municipal, onde fiz uma forte oposição nas várias autarquias locais. Mas, apesar das diferenças políticas, nunca deixei de ser próximo de pessoas que estavam do outro lado da barricada; os adversários políticos nunca foram, para mim, inimigos. Por isso, apesar de saber que alguns amigos acharam estranho, decidi ir à Festa do Avante no passado fim de semana.

 O meu verdadeiro objetivo era muito simples, mas carregado de memória e afecto: ver o concerto de Ney Matogrosso. Aprendi a ouvir aquela voz inconfundível ainda em miúdo, através dos discos de vinil que rodavam em casa dos meus pais. Ir à Quinta da Atalaia não foi um acto partidário, mas sim uma viagem no tempo, um reencontro com a minha própria história e com um dos maiores ícones da liberdade artística.

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Foi precisamente ao ver aquele homem de 85 anos em palco, desafiando o tempo, as convenções e todas as fronteiras, que me lembrei de uma das suas interpretações com a música que abriu o concerto: A Balada do Louco. Essa composição inspirou esta reflexão.

Muitas vezes olham-nos de cima abaixo, com réguas invisíveis para medir a sensatez, e decretam o diagnóstico de malucos e desajustados.  Mas quem dita as regras do hospício a que chamamos sociedade? Aqueles que se vendem por um tacho ou por uma ilusão de segurança deixam de pensar pela sua cabeça.

Enquanto uns contam os carros que têm na garagem, outros contam as estrelas que ainda conseguem tocar; enquanto alguns se arrastam pelo asfalto da conformidade, nós já estamos no ar. Se o sucesso de uns se mede pelo peso daquilo que possuem, a nossa vitória mede-se pela leveza de não pertencermos a ninguém.

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A verdadeira revolução não começa nas armas, nasce no direito de recusar a normalidade. Dizer “não” a um mundo cinzento pode ser o maior acto de rebeldia que existe. Se ser normal significa aceitar a apatia, a inveja e a tristeza mansa dos dias iguais, então talvez a própria lucidez seja uma prisão.

Que fiquem com os seus impérios de papel, títulos e likes nas redes sociais. Se eles são os reis deste teatro absurdo, nós somos os donos do nosso próprio destino. Na nossa dita loucura existe a audácia e a coragem de criar a nossa própria realidade. Não há tratamento para quem descobriu a liberdade, e esta febre de viver sem amarras é altamente contagiosa. No fim de contas, talvez louco seja quem nos chama loucos e morre de inveja por não saber voar.

Contudo, a Festa do Avante foi muito mais do que o concerto de Ney Matogrosso. Durante o evento, cruzei-me com várias pessoas, conversei, conheci gente nova e visitei a Feira do Livro. Gostei da experiência e, sobretudo, de perceber que é possível entrar num espaço que não é o nosso espectro político e, ainda assim, encontrar pessoas, histórias e afectos próximos.

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À saída, cruzei-me com uma amiga barreirense, a Sónia Malacão, filha do antigo presidente da Junta de Freguesia do Barreiro, que com um abraço e um sorriso me disse simplesmente: “Espero que tenhas gostado. Volta sempre!”.

Aquelas palavras ficaram comigo no caminho de regresso a casa, fazendo-me meditar sobre algo fundamental: o mundo seria muito melhor se aprendêssemos a respeitar-nos, mesmo quando pensamos de maneira diferente. Não precisamos de concordar em tudo para reconhecer no outro a mesma dignidade, os mesmos direitos e o mesmo valor.

As diferenças não deveriam separar-nos, deveriam ensinar-nos a compreender, a escutar e a crescer. Respeitar o outro não é pensar como ele, é perceber que a nossa liberdade só vale verdadeiramente quando somos capazes de respeitar a liberdade alheia.

Talvez seja essa a verdadeira loucura de que precisamos: a audácia de sermos livres sem querer aprisionar ninguém, a coragem de defendermos as nossas ideias sem negar as dos outros, e a humildade de perceber que, numa sociedade dividida entre “nós” e “eles”, somos todos muito mais parecidos do que julgamos.

 No fundo, foi isso que trouxe comigo da Festa do Avante: um concerto espetacular, memórias, novas partilhas, o abraço e um sorriso de uma amiga e a certeza de que podemos estar em lados diferentes da política e continuar exatamente do mesmo lado enquanto seres humanos.

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