Os maiores perigos vivem dentro de nós

Os maiores perigos vivem dentro de nós

Os maiores perigos vivem dentro de nós

9 Setembro 2026, Quarta-feira
Militante da justiça e direitos humanos

“Transformar a dor que olha para uma sepultura na dor que olha para uma estrela.”

Há histórias que não envelhecem. Podem mudar os tempos, as sociedades, as tecnologias e a forma como comunicamos, mas continuam a dizer-nos quem somos. Os Miseráveis, de Victor Hugo, é uma dessas obras. Recentemente, fui ao cinema rever mais uma adaptação deste clássico, Os Miseráveis – A História de Jean Valjean.

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Nesta obra, contudo, não é Jean Valjean que mais me marca, apesar da força do seu percurso. É o Bispo Myriel. Através dele, Victor Hugo coloca-nos perante uma das questões mais difíceis da condição humana, até que ponto somos capazes de olhar para alguém não pelo que fez, mas por aquilo que ainda pode vir a ser?

Jean Valjean é um homem marcado pela pobreza, pela prisão e pelo ressentimento. Após anos de sofrimento, acolhido pelo bispo, rouba-lhe a prata. Apanhado e levado perante o homem que o tinha recebido, a história poderia seguir o caminho habitual: a denúncia, o regresso à prisão e a confirmação do rótulo de criminoso. Mas o bispo escolhe outro caminho. Protege-o, afirma à polícia que a prata fora um presente e entrega-lhe o que faltava. Não está simplesmente a perdoar um roubo, está a acreditar que aquele homem pode ser diferente.

É aqui que a obra passa a ser uma reflexão sobre nós próprios. Hugo coloca na boca do Bispo Myriel uma frase extraordinariamente atual: “Não temamos os ladrões nem os assassinos. Esses são perigos exteriores, pequenos perigos. Temamos a nós próprios. Os preconceitos são os verdadeiros ladrões; os vícios são os verdadeiros assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós.”

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Vivemos preocupados com as ameaças externas, violência, pobreza, crises económicas ou instabilidade política. Contudo, esquecemo-nos dos perigos silenciosos que nascem dentro de nós e destroem a sociedade: o ódio, o orgulho, o egoísmo e, o mais perigoso de todos, a indiferença.

O preconceito faz-nos julgar antes de conhecer e condenar antes de ouvir, disfarçado da defesa dos nossos valores. O orgulho impede-nos de reconhecer erros, enquanto o egoísmo nos convence de que os problemas dos outros não nos dizem respeito. Assim, construímos uma sociedade em que é cada vez mais fácil apontar o dedo e mais difícil estender a mão.

Atualmente, somos céleres a julgar. Basta uma publicação nas redes sociais ou um episódio do passado para emitir uma sentença definitiva, reduzindo a pessoa ao seu erro. O Bispo Myriel faz o oposto. Não nega o roubo nem retira a responsabilidade a Valjean, mas recusa que esse acto defina toda a sua existência. Perdoar não significa apagar o mal, mas recusar que ele tenha a última palavra.

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Nisto reside a dimensão profundamente cristã da história. A misericórdia não é permissividade, é a crença na capacidade de transformação. A justiça é necessária para garantir a responsabilidade, mas, sem misericórdia, converte-se em vingança.

A atualidade do bispo está nos seus atos, não em discursos. Dá confiança a Valjean antes de ele a merecer, responsabilizando-o a corresponder a esse voto de fé. Não sabemos quantas vidas, ou quantos jovens, poderiam seguir outro rumo se encontrassem alguém disposto a dizer-lhes que ainda há futuro.

Uma sociedade pode mudar as suas leis e estruturas, mas nenhuma transformação será profunda sem uma mudança interior. Hoje, temos mais informação e menor compreensão; comunicamos com o mundo inteiro, mas ignoramos quem está ao nosso lado. É fácil exigir reformas externas e ignorar o que precisa de ser corrigido dentro de nós.

Daí a força de outra imagem associada ao Bispo Myriel: “Transformar a dor que olha para uma sepultura na dor que olha para uma estrela.” Não se trata de ignorar o sofrimento ou a perda, mas de não permitir que eles definam o nosso horizonte. A sepultura representa o desespero, a estrela aponta a possibilidade.

Ninguém deve ser reduzido ao seu pior momento. Jean Valjean encontrou alguém que lhe abriu uma porta em vez de a fechar. Por vezes, transformar uma vida não exige uma grande lei ou uma revolução. Basta um gesto, um olhar que diga: ainda não acabou. É aí que começa a verdadeira esperança.

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