100 ANOS DO DISTRITO DE SETÚBAL, 100 ACONTECIMENTOS.
Dois dias antes do arranque houve uma alegada tentativa de sabotagem do certame
Há quase 50 anos, em setembro de 1976, abriram-se as portas das antigas instalações da Feira Internacional de Lisboa (FIL) para receber cerca de 200 mil visitantes na primeira edição da Festa do Avante!. Após umas eleições que apresentavam resultados longe daquilo que era o esperado, tendo o PCP assumido o lugar de quarta força política, o certame revelou-se um sucesso, apesar de ter estado em vias de não se realizar.
Dois dias antes do arranque da festa, que estava marcado para o dia 24 de setembro, houve uma explosão numa cabine elétrica que deixou o recinto e os locais próximos sem qualquer eletricidade. Apesar de não terem existido quaisquer provas que confirmassem esta teoria, à época acreditava-se que pudesse ter sido uma tentativa de sabotagem. No entanto, o incidente não foi suficiente para impedir que a festa se realizasse e, com um gerador e algumas tentativas de conserto, o Avante! avançou sob um dia de chuva.
De acordo com uma publicação do jornal Observador, aquando do 40º aniversário da Festa do Avante!, é referida uma notícia da época escrita pelo Diário de Lisboa que dava conta do grande acontecimento que teria sido esta primeira edição do certame. “A poucas horas do início, esta do ‘Avante’ na qual participam 300 artistas de todo o mundo, centenas de militantes do PCP dão os últimos retoques aos numerosos stands montados na FIL. (…) É praticamente toda a FIL transformada pelas mãos dos militantes do PCP que criaram um grandioso cenário refletindo o que pode ser este país transformado pelas mãos dos trabalhadores, com a economia, a educação, a cultura, etc. ao serviço do povo. (…) Haverá espetáculos de cinema, teatro, música, bailado, etc., que decorrerão nos sete palcos montados em diversos pontos da FIL”, pode ler-se.
Também a RTP Arquivos disponibilizou as declarações de Ruben de Carvalho, chefe de redação do jornal e órgão oficial do PCP “Avante” até 1995, que referiu que a primeira edição da festa estava “a corresponder, no essencial,” àquilo que se esperava. “Apesar dos incidentes que tivemos, nomeadamente a chuva, parece que isso em nada afetou a assistência e está a ser um êxito completo”, afirmou.
Quanto aos “momentos altos”, Ruben de Carvalho sublinhou “os momentos que mais se prendem com as posições políticas e a afirmação política” que se pretendia que a Festa do Avante! fosse para o PC. Sublinhou as homenagens a Fernando Lopes Graça e Carlos Paredes, os debates acerca de temas da atualidade e a “grande manifestação de força, de vontade e de capacidade de organização do partido e do apoio com que ele conta junto das massas populares e do povo português”.
Certame percorreu várias localidades até se fixar no Seixal, em 1990
A Festa do Avante! passou por cinco locais distintos até se fixar, em 1990, na Quinta da Atalaia, no concelho do Seixal. Em causa estaria, de acordo com o PCP, o “Estado capitalista que ‘sacudiu’ os comunistas e a sua Festa”.
Após a primeira edição na FIL, o local foi negado no ano seguinte. No entanto, o partido afirma que não havia igualmente condições para se proceder com o evento naquelas instalações, pelo que se deslocaram para o Vale do Jamor e lá ficaram durante três anos. Terreno esse que lhes foi depois retirado devido à construção de um complexo desportivo previsto para o mesmo.
Dali, a Festa do Avante! seguiu para o Alto da Ajuda, onde decorreu de 1979 a 1986. Nesse último ano, foram informados que iria começar a ser construído um campus universitário, pelo que, tiveram que se mudar para Loures, para um terreno privado, numa solução provisória. Por essa altura, o partido decidiu que seria necessário arranjar um terreno fixo para a realização da festa.
A grande viragem aconteceu em 1989, quando o PCP conseguiu comprar a Quinta da Atalaia através de uma campanha nacional de angariação de fundos. A posse de um terreno próprio permitiu acabar com a “peregrinação” anual, reutilizar infraestruturas e planear a festa a longo prazo.
Na realização do evento desse ano, Álvaro Cunhal, o então secretário-geral do PCP, sublinhou esta grande novidade que marcava um ponto de viragem para a festa. “É no concelho do Seixal, são 25 hectares. É um terreno bonito, formoso, junto ao rio, que tem urbanização, e pensamos que as festas que aí iremos realizar terão condições para ser belíssimas festas, num ambiente aprazível, onde nos sentiremos bem, além do mais porque ninguém nos pode tirar de lá”, disse.