“Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, pôr as coisas em relevo”. Assim escrevia Rómulo de Carvalho, o homem que a literatura batizou de António Gedeão e que fez da curiosidade um ato de fé. Professor, divulgador e poeta, três facetas diferentes numa só alma que acreditava que o saber só é completo quando desperta o coração. Em cada sala de aula e em cada verso, ergueu uma ponte entre a experiência e a emoção. A sua poesia, muito marcada pelas metáforas, ensinou-nos que a ciência também pode ser humana e que a imaginação é uma forma de conhecimento.
Em Setúbal, o seu nome ecoa diante de muitos outros importantes, nas ruas, nas bibliotecas, e nas escolas onde a voz dos professores ainda hoje recitam as obras do mestre diante dos seus alunos. A visão intemporal do professor como semeador de curiosidade inspira ainda os projetos educativos do distrito. Gedeão lembrava-nos que “o sonho comanda a vida”, mas Rómulo de Carvalho ensinava-nos que o pensamento sustenta o sonho.
Cem anos depois, o distrito que celebra a sua própria história encontra no seu exemplo uma metáfora perfeita: uma região que cresce porque pensa, que transforma o trabalho em arte e o quotidiano em descoberta. A sua mensagem é ainda um farol para alunos que veem na escola o espaço onde a curiosidade se transforma em liberdade. António Gedeão mostrou que o ensino pode ser uma forma de poesia e que cada experiência científica é também uma lição de humanidade.
O seu legado é retrato do distrito, trabalhador, questionador e profundamente humano. Revisitando a Escola Secundária António Gedeão, sentimos claramente a presença do patrono, seja nas paredes recheadas com as suas obras literárias, seja no espírito de curiosidade e liberdade que ainda hoje percorre nos corredores da escola. É espantoso pensar que é celebrado, todos os anos, nesta escola a vida deste pensador, uma pessoa lembrada e dignificada. Conseguimos evidenciar um paralelismo interessante entre o caminho da aprendizagem iluminado por Rómulo de Carvalho e a genialidade na voz pura de António Gedeão que lhe deu a alma necessária. Em Setúbal, ambos vivem no brilho curioso de cada olhar que descobre que a ciência pode ser poesia e que aprender é, afinal, a mais bela forma de sonhar.
Hoje, perante novos olhares e inovações tecnológicas, o apelo de Gedeão continua urgente: cultivar a curiosidade, manter a escola como território de liberdade e lembrar que ensinar é provocar perguntas. Que as novas gerações guardem essa lição: investir nas ciências sem esquecer as letras, preservar a memória daqueles que outrora foram mestres e transformar essa em ação educativa concreta. Só assim o distrito, nas suas próximas décadas, fará jus à herança de um homem que viveu a ciência como poesia e a poesia como método de conhecimento.
Texto publicado por Francisco Cavaco na edição especial da revista ‘Perfil Local’ da ESE/IPS