O legado silencioso de um Campeão

O legado silencioso de um Campeão

O legado silencioso de um Campeão

Nascido em Sines, há 47 anos, Ricardo Pereira tornou-se um nome marcante do hóquei em patins português. Entre títulos nacionais, conquistas internacionais e décadas dedicadas à modalidade, construiu uma carreira feita de trabalho, simplicidade e paixão.

A infância ficou ligada às praias, convívios familiares e dias inteiros passados entre a Costa do Norte e São Torpes. Foi no infantário que calçou os primeiros patins, incentivado pelo professor Mário Lagartinho, figura que viria a acompanhar o seu crescimento desportivo. Uma ida casual a um jogo despertou-lhe o interesse: “Fui ver, gostei daquilo e quando viemos disse que queria experimentar”.

Aos 17 anos, deixou Sines para jogar no Benfica, mudança que descreve como desafiante, mas fundamental para amadurecer. Em Lisboa, partilhou casa com amigos da terra, encontrando apoio num período de adaptação. No clube, descobriu também uma figura determinante, o treinador Carlos Dantas, que considera “quase um pai nesta nova fase”.

Ao contrário de muitos atletas, nunca se guiou pela ambição de imitar alguém. Jogava porque gostava e encarava cada etapa com dedicação. “Sempre joguei hóquei porque gosto. Aquilo a que me proponho é para dar sempre o máximo”. Os resultados acabaram por surgir: campeão nacional pelo Benfica, vencedor da Taça de Portugal e Supertaça, campeão europeu pela seleção e campeão do mundo em 2003, em Oliveira de Azeméis.

Seguiram-se desafios no estrangeiro, como em Espanha e Itália, onde venceu competições como a Taça CERS [Comité Europeu de Hóquei em Patins], a Supertaça italiana e o Mundial de clubes. Regressou, mais tarde, ao Benfica, ajudando o clube a retomar conquistas europeias que já fugiam há décadas. Mas fala dessas vitórias com humildade, destacando sempre a família: “A minha mulher tem sido o grande pilar deste trajeto”. Hoje, é gestor de projetos tecnológicos e treinador no Parede, enquanto o filho, Miguel Pereira, segue a carreira de guarda-redes.

Para Ricardo Pereira, transmitir valores tornou-se tão importante como ensinar técnica. Humildade, honestidade e profissionalismo são princípios que manteve e, agora, tenta incutir nos jovens, “Que aquilo que lhes transmito seja algo que possam levar para a vida”.

Sobre a evolução do hóquei, destaca uma maior velocidade, mas nem sempre acompanhada de equilíbrio tático. Considera que o crescimento da modalidade exige melhores condições estruturais e apoio contínuo aos clubes, “se não fosse o gosto pelo hóquei, não teríamos tantos atletas”. Defende também mais divulgação e aposta na formação de base, por acreditar que muitas dificuldades surgem no período inicial de aprendizagem.

Na sua terra natal, reconhece a evolução com o novo pavilhão e investimento tecnológico, mas alerta que a qualidade de vida deve acompanhar esse crescimento, desde serviços de saúde a oportunidades profissionais. Já sobre os 100 anos do distrito de Setúbal, fala, orgulhosamente, sobre a história da região, associando-a ao espírito aventureiro de Vasco da Gama, símbolo identitário que sempre sentiu presente.

O futuro, para o entrevistado, passa pela formação. Quer deixar valores, cultura desportiva e amor à modalidade. O conselho que deixa aos jovens resume a sua filosofia, jogar por paixão à modalidade, mas lembrar que a vida não acaba no ringue. “Além de dedicarmos a vida ao hóquei, temos de pensar mais além”. Com a mesma gratidão com que começou a carreira, o ex-internacional continua ligado à modalidade, agora do lado de fora, a tentar que as novas gerações “tenham gosto por isto”, tal como ele teve desde os primeiros passos em Sines até os maiores pavilhões do hóquei português.

Texto publicado na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS

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