15. Da ascensão à “morte encomendada ”e o peso do decreto sem “lei” nem roque

15. Da ascensão à “morte encomendada ”e o peso do decreto sem “lei” nem roque

15. Da ascensão à “morte encomendada ”e o peso do decreto sem “lei” nem roque

100 ANOS DO DISTRITO DE SETÚBAL, 100 ACONTECIMENTOS.
O Hospital do Montijo nasceu da Misericórdia. Foi referência distrital e depois veio o diploma da fusão com o do Barreiro a determinar uma coisa que saiu outra

A Santa Casa da Misericórdia do Montijo projetou e a obra nasceu. A primeira pedra foi colocada a 2 de maio de 1943 e, cerca de quatro anos volvidos, em 1947, era inaugurado o edifício construído para albergar duas enfermarias com capacidade máxima para 16 camas. Nascia assim o Hospital do Montijo, no centro da vila que viria a ser elevada a cidade em 14 de agosto de 1985.

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Não demorou muito para que a então pequena infraestrutura viesse a crescer, face à pressão a que estava sujeita em função da intensa procura, que não se pode dissociar de um também rápido crescimento populacional. Apenas quatro anos depois, em 1951, eram iniciadas obras de ampliação que ficariam concluídas em 1954.

As datas figuram no resumo histórico do Hospital do Montijo publicado no site da Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho (ULSAR), no qual se destacam três outros momentos de capital importância. O primeiro, em 1 de agosto de 1967, quando a unidade “passou denominar-se Hospital Concelhio do Montijo”; o segundo, em 1976, quando foi “integrado no Serviço Nacional de Saúde (SNS)”; e, o terceiro, em 16 de fevereiro de 1983, quando foi “elevado à categoria de Hospital Distrital, sendo dotado das respetivas valências básicas”.

Depois da ascensão viria a “queda”. As políticas seguidas pela tutela, com reestruturações, reorganizações, sem deixar de contemplar propósitos economicistas, revelariam-se catastróficas para o Hospital do Montijo, que viria a ter “morte encomendada” por duas vezes, ao estar listado para encerramento (em 2006 e 2012), e a ser cada vez mais “esvaziado” de serviços.

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O primeiro momento, em 2006, foi o mais crítico, quando foi conhecida a lista de urgências hospitalares com indicação expressa para serem encerradas. O Hospital do Montijo tinha sido incluído na listagem da Comissão Técnica de Apoio ao Processo de Reorganização das Urgências. A contestação política e social contribuíram para impedir o fim, mas houve um fator – considerado por uns como um mal menor; e por outros como o abandono de uma luta que deveria ter sido travada até final pela sua autonomia – que teve peso determinante: o acordo, assinado em 2007 entre a Câmara Municipal e a então Administração Regional de Saúde e Vale do Tejo, para a criação do Centro Hospitalar Barreiro Montijo (CHBM).

“O parente pobre”

O Decreto-Lei 280/2009, publicado em Diário da República em 6 de outubro, criava o CHBM. No diploma podia ler-se: “A criação do novo Centro Hospitalar Barreiro Montijo, E. P. E., não determina qualquer redução de valências de cada um dos estabelecimentos de saúde objeto da presente transformação nem altera o planeamento dos cuidados de saúde já efectuado, mas visa apenas potenciar o efeito da gestão comum de dois estabelecimentos hospitalares que se complementam em termos da resposta às necessidades de cuidados à população da sua área de influência”.

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Porém, não seria assim que viria a acontecer. Na prática, e a esta distância, mais parece estar-se perante um decreto “sem lei nem roque”. É que o Hospital do Montijo perderia valências e viria a ficar reduzido à expressão mínima que hoje se lhe conhece – mas, atente-se, importante (o pouco que apresenta será sempre significativo e melhor do que não ter nada). Quem necessitar de ser suturado com dois ou três pontos tem de se deslocar ao Barreiro. Foi para lá que levaram tudo, desde médicos ao material mais básico.

“Montijo foi sempre o parente pobre, no Barreiro nunca se gostou do Hospital do Montijo, direções, de chefias e alguns médicos. Chamavam os colegas do Montijo de incompetentes. Assim que conseguiram a criação do CHBM, a primeira coisa que fizeram foi ir buscar todos os médicos, os tais que diziam que eram incompetentes. Levaram sanitas, lavatórios… tudo o que de melhor ali havia, inclusivamente as camas articuladas, que no Barreiro não tinham daquelas. Até armários, tudo isso eles levaram. Puseram cá velho. E a partir daí foram esvaziando o hospital”, descreveu João Veiga, antigo profissional na unidade hospitalar e membro da atua Comissão de Utentes da Saúde do Montijo, em entrevista concedia a O SETUBALENSE e à Rádio Popular FM em novembro passado.

A história do Hospital do Montijo seria ainda marcada pela abertura da Cirurgia do Ambulatório em 1 de junho de 2012 – serviço que tem sido uma referência a nível nacional – e pela instalação da Unidade de Saúde Familiar Aldegalega (que começou a funcionar em setembro de 2022), no local onde um dia funcionou a Medicina Interna.

Em 1 de janeiro de 2024 o CHBM passou a estar integrado na ULSAR, entidade que engloba os concelhos de Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo.

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