Valete: “A música é a maneira mais fácil de levar conhecimento e intelectualidade aos jovens”

Valete: “A música é a maneira mais fácil de levar conhecimento e intelectualidade aos jovens”

Valete: “A música é a maneira mais fácil de levar conhecimento e intelectualidade aos jovens”

O rapper revela que Setúbal o fez “sentir em casa” e reflete sobre a importância da cultura musical no fomento do pensamento crítico entre os novos públicos

Após o concerto na Feira de Sant’Iago, Valete fala sobre a ligação especial com o público setubalense, reflete sobre os 20 anos de “Roleta Russa” e defende a música como ferramenta de intervenção social e de preservação da democracia.

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De regresso a Setúbal, Valete voltou a encontrar um público que descreve como recetivo e aberto às suas músicas mais “arriscadas”, permitindo-lhe apresentar novas sonoridades e versões das suas canções. O rapper considera que a cidade tem uma energia distinta e uma forte ligação à cultura, destacando figuras como Zeca Afonso, Bocage e A Garota Não como referências marcantes da identidade setubalense.

Em entrevista a O SETUBALENSE, o artista fala sobre o papel de uma das músicas mais emblemáticas da sua carreira, e reflete sobre o impacto social que continua a ter junto de diferentes gerações. Valete defende que a música desempenha um papel fundamental na formação cívica e política dos jovens, lamenta a perda do carácter interventivo do rap contemporâneo e assume o compromisso de continuar a usar a sua obra como forma de resistência. O músico revela ainda que o seu próximo projeto será uma homenagem à ligação histórica entre o hip-hop e o jazz, procurando aproximar dois géneros que considera inseparáveis nas suas origens.

Está de volta a Setúbal, desta vez na Feira de Sant’Iago. O que é que sentiu da parte do público e como é atuar em Setúbal?

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Gostei muito, já é a segunda vez que faço aqui em Setúbal, e gosto muito, estamos a 30 minutos de Lisboa, mas a vibração é diferente. É diferente, sinto que posso cantar músicas mais arriscadas, sinto que as pessoas estão dispostas.

Trouxe uma coisa mais ‘jazzy’, ou seja, para um fã da Valete trouxe versões diferentes das minhas canções – é um risco, mas as pessoas aceitam, estão abertas a ouvir coisas novas, versões novas das músicas – espetacular. Adorei o concerto, senti-me em casa.

Durante o concerto, mencionou alguns artistas setubalenses (como Bocage, A Garota Não e Zeca Afonso). Setúbal e os seus artistas também o inspiram na sua expressão musical?

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Já falei de Zeca [Afonso] várias vezes nas minhas músicas, sempre falei de Zeca Afonso. É, se calhar, uma das grandes referências da música militante em Portugal, uma lenda.

Não só pensando em música militante, mas mesmo em música portuguesa. Toda a gente que quer fazer música em Portugal, que quer fazer música com um cariz mais social, que quer ter impacto musical, liricamente e musicalmente, acho que deve estudar Zeca Afonso.

A Garota Não, é das minhas artistas favoritas, sou mega fã d’A Garota Não e para mim é a ramificação de Zeca Afonso. Ela é a filha que o Zeca Afonso não teve.

A música Roleta Russa fez 20 anos no sábado, como olha para o impacto desta música passados 20 anos? Cumpriu o seu propósito?

Acho que sim. Se fosse hoje teria uma forma diferente, era mais novo e estava a viver num momento do hip-hop muito diferente. Eu era um artista muito mais invisível, um artista que não tinha tanto alcance – e até foi a Roleta Russa que fez com que o Valete tivesse um alcance muito maior.

Hoje sinto que tenho mais responsabilidade, que tenho de ter alguns cuidados que naquela altura não tinha. Mas, tirando essa parte menos responsável do som, o resto está muito bem cumprido. É um som que fala de um tema que é muito pouco falado no rap nacional, muito pouco falado entre os jovens e sempre que as pessoas ouvem esse som, o tema está presente. De certeza que muita gente refletiu comportamentos por causa dessa música, então creio que é das músicas com papel social mais importante do rap português.

Que papel considera que a cultura, especialmente a música, tem na preservação da democracia?

Creio que tem um papel muito importante, quase tudo o que eu adquiri a nível de conceitos políticos, reflexões que fiz sobre filosofia, sobre religião, sobre sociedade, fiz ao ouvir música.

Ao ouvir Zeca Afonso, ao ouvir Sérgio Godinho, ao ouvir ‘rappers’, ao ouvir A Garota Não.

Essa música mais social, mais militante, consciente, filosófica, permitiu que tivesse crescimento intelectual e que me importasse mais com a sociedade. E a música é a maneira mais fácil de levar conhecimento, de levar intelectualidade para os jovens.

Os jovens leem cada vez menos. Então, se tiveres um cantor ou um rapper letrado, que passe informação, que tenha um cariz militante, isso tem muita força. Isso pode mesmo mudar pessoas.

Diz-se que o rap tem cada vez menos sentido de intervenção social. Concorda com isso?

Sim, em todo o mundo, não é só em Portugal. O rap foi capturado pela indústria capitalista, não há dúvidas disso, e hoje é uma coisa lúdica, uma coisa para alimentar a indústria, para fazer dinheiro, para entreter, e essa parte mais social está a sofrer muito.

Mas, sou um dos resistentes e quero que os meus pares também não desistam dessa luta. Temos de fazer o nosso papel, nós somos a resistência, já éramos há 20 anos, já éramos há 30 anos, temos de continuar a ser até o fim a resistência.

Ouvimos hoje muito jazz misturado com hip-hop. Podemos esperar mais disto para o futuro?

Sim, o meu próximo projeto é um projeto meu com a banda Jazz Swingers – esta banda e alguns produtores, nesta linha mais rap e jazz. E é uma homenagem do hip-hop ao jazz.

Para mim é muito importante fazer esta homenagem porque em Portugal o jazz está muito distante do hip-hop. Em Portugal o jazz é uma coisa muito elitista, uma coisa de classe média-alta, e as pessoas não sabem, mas o jazz é uma coisa que vem da escravatura, da pobreza, das comunidades negras que sofreram muito.

O jazz é um dos pais conceptuais e morais do hip-hop. Tudo que o hip-hop ‘bebeu’ de ser contracultural, de ser militante e alternativo, vem do jazz. O jazz sempre esteve muito próximo do hip-hop, mas em Portugal não. Então quero aproximar e quero despertar isso nas pessoas. As pessoas têm de entender que o jazz é um dos pais do hip-hop.

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