A história começou a escrever-se na Austrália, nos Jogos Paralímpicos de 2000. Até 2016, teve vários capítulos dourados. O reconhecimento chegou agora
Já lá vão cerca de 26 anos, desde que fez história para Portugal nos Jogos Paralímpicos de Sydney ao conquistar duas medalhas de ouro e uma de bronze em atletismo. Até 2016 continuou a fazer com que a bandeira nacional fosse hasteada em vários dos principais palcos competitivos europeus e mundiais. Mas, só no mês passado – quase uma década depois de ter terminado a carreira – é que, tal como outros, teve honras de reconhecimento da parte do Governo. Gabriel Potra recebeu a 20 de maio, na Anadia, das mãos do primeiro-ministro, Luís Montenegro, a distinção “Medalha de Ouro – Colar de Honra ao Mérito Desportivo”.
“Foi um grande motivo de orgulho, porque é um reconhecimento do mérito que atletas como eu e outros tivemos. Tivemos a honra de representar o nosso país e a capacidade de atingir patamares de excelência”, disse o ex-atleta montijense, que se destacou nos 100m, 200m e 400m, em entrevista concedida à Rádio Popular FM (90.9).
Foram agraciados cerca de 50 atletas olímpicos, paralímpicos e surdolímpicos, que até então nunca haviam sido distinguidos institucionalmente, apesar de terem elevado bem alto o nome de Portugal com várias conquistas. Mas, mais vale tarde do que nunca. “Infelizmente, a nossa cultura é futebol… eu ver ali atletas de excelência, como Patrícia Mamona, Nelson Évora, Nuno Delgado, todos na mesma situação do que eu, fez-me pensar que foi um passo tardio, mas reconhecido e acho que daqui para a frente o Governo é capaz de ter uma sensibilidade e uma preocupação diferentes.”
Um reconhecimento que, nalguns casos, foi feito a título póstumo, conforme lamentou Gabriel Potra. “Eu ainda tive a sorte e o orgulho de receber em vida, uma vida ainda bem ativa, mas houve atletas a serem homenageados que quem teve de ir levantar o prémio foram os filhos ou os netos. Já cá não estão entre nós, infelizmente.”
O montijense afirmou-se à escala planetária nos Jogos Paralímpicos que decorreram em 2000 na Austrália, onde conquistou o ouro nos 200m e na estafeta 4x400m, além do bronze nos 100m. “Obviamente que a participação nos Jogos é o patamar mais alto de qualquer atleta de alta competição. Aquilo é mágico. Os Jogos de Sydney foram os meus primeiros, tinha 20 anos na altura, fui para o desconhecido, trabalhei muito. No ano anterior, em 1999, tivemos um Europeu, até foi em Lisboa, e tive resultados de excelência, mas estava a aparecer”, lembrou, para de seguida revelar uma das principais memórias que guarda.
Memória marcante
“Não sei se um dia vou deixar de ter esta memória. A minha primeira vez em Sydney foi a eliminatória dos 200m. No percurso do túnel para entrar no estádio, que estava com mais de 80 mil pessoas, o meu coração disparou como nunca pensei. Aquela ansiedade, aquela adrenalina, tive momentos em que fiquei paralisado. O meu mister tentou acalmar-me, fui entrando, lá ajeitei os blocos, sempre com uma ansiedade, aquele frio na barriga, o peso de sentir Portugal às costas, sofri bastante. A prova não me correu nada bem. Consegui passar à meia-final, apenas nas repescagens, não ganhei as eliminatórias. Depois libertei-me, ambientei-me e na final estava com o terceiro melhor tempo, mas consegui superar-me e fui medalha de ouro”, contou, ao mesmo tempo que admitiu que esta até nem foi das três medalhas a mais difícil de conquistar. É que o ouro alcançado na estafeta 4x400m foi à pele.
“Fiz o último percurso, o quarto. Quando me entregaram o testemunho estava em terceiro lugar a uma distância enorme do primeiro, o atleta espanhol. Consegui apanhá-lo à entrada da reta dos últimos 100m e foi taco a taco até ao fim. Ganhámos por 4 ou 5 centésimos, já não me recordo bem. Estávamos quase abraçados um ao outro, até entrámos em conflito na entrada da reta. Foi duríssimo. Quando terminámos, ainda quis andar lá a porrada com eles, aquilo foi uma confusão”, revelou.
Recorde do mundo
Dois anos depois, Gabriel Potra voou nos 400m e alcançou um tempo que ainda hoje é de topo: 48,62 segundos, marca com que o marroquino Mouncef Bouja ganhou o ouro (classe T12) nos Jogos Paralímpicos de França em… 2024.
“Em 2002, fui campeão dos 400m nos campeonatos do mundo em França, onde estabeleci o recorde mundial [na meia-final]. Uma marca de excelência que foi dez anos recorde do mundo e que acho que neste momento, passados 24 anos, ainda se mantém como recorde da Europa”, sublinhou.
Gabriel Potra viria a somar conquistas até 2016 (ver caixa) no atletismo, na classe T12, para atletas com limitação de visão. E sempre teve uma preferência. “A minha prova preferida era a dos 200m, mas tive maior êxito nos 400m.”
Atualmente, preside ao Estrela Futebol Clube Afonsoeirense, no Montijo, ao qual tem enorme ligação afetiva “O Estrela Afonsoeirense foi a minha casa, a minha segunda casa, onde iniciei a minha atividade até no futebol, com 6 ou 7 anos. Ainda continuo a viver ali muito próximo e foi onde tudo começou”, frisou.
O ex-atleta abordou ainda as dificuldades do clube, que conta com cerca de 400 atletas, bem como vários episódios marcantes do seu trajeto enquanto atleta, como os sacrifícios a que se sujeitou juntamente com a família, na entrevista que está disponível na íntegra aqui..
Pódios Medalhas nos principais palcos do mundo
Gabriel Potra é uma referência do atletismo português. Das muitas conquistas alcançadas, destaca-se desde logo o feito conseguido nos Jogos Paralímpicos de Sydney, Austrália, em 2000, onde foi Medalha de Ouro nos 200m e também na estafeta de 4x400m, às quais juntou uma Medalha de Bronze nos 100m.
Em 2002, nos Campeonatos do Mundo em França, foi Medalha de Ouro nos 400m, com recorde do mundo (48,62 segundos), e também nos 200m, além de ter conquistado a prata na estafeta 4x100m. Em 2003, destaca-se a conquista da Medalha de Ouro nos 200m nos Mundiais disputados no Canadá e também Medalha de Ouro nos 200m e nos 400m no Campeonato da Europa que decorreu nos Países Baixos (Holanda).
Foi Medalha de Prata no pentatlo nos Jogos Mundiais IBSA em 2007 no Brasil e também na Estafeta 4x100m nos Campeonatos da Europa de 2012, de novo nos Países Baixos.
Em 2016, foi Medalha de Bronze nos 100m e na estafeta 4x100m nos Campeonatos da Europa, que decorreram na Itália. Potra somou ainda outras conquistas, ao longo de uma carreira que terminou após os Europeus de Itália.