O século XX português foi historicamente marcado por quatro acontecimentos determinantes, a saber: o 5 de Outubro de 1910, o 28 de Maio de 1926, o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975.
A História funciona por ciclos; o 5 de Outubro de 1910 estabeleceu o fim da Monarquia e o início da 1ª República; o 28 de Maio de 1926, iniciou um novo ciclo com o fim da Primeira República que viria a dar origem ao Estado Novo; o 25 de Abril é o terceiro ciclo histórico que assinalou o fim do Estado Novo e o início da Democracia; finalmente o 25 de Novembro de 1975, determinou a reentrada definitiva nos carris da Democracia, perante a ameaça comunista.
Hoje irei abordar o 28 de Maio de 1926 que ocorreu há precisamente cem anos.
Para procurarmos compreender o 28 de Maio, temos de procurar entrar dentro da essência da 1ª República, caracterizada por uma grande instabilidade política, com a sucessão ininterrupta de quarenta e cinco governos e oito Presidentes da República, a saber: Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Bernardino Machado, Sidónio Pais, Canto e Castro, António José de Almeida, Manuel Teixeira Gomes e novamente Bernardino Machado.
O meu avô Carlos, monárquico convicto, olhava para toda esta instabilidade com tristeza e ressentimento.
Após dezasseis anos de instabilidade reiterada, a população e as instituições desejavam uma solução que impusesse ordem ao caos nacional, dado o colapso económico, social e político desses tempos conturbados.
Dos partidos existentes, o Partido Democrático era o que controlava o sistema político, enfrentando acusações de corrupção e clientelismo.
Por outro lado, eventos como a Noite Sangrenta de 1921 — na qual o chefe de governo António Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado dos Santos foram assassinados — contribuíram decisivamente para descredibilizar as instituições republicanas.
A participação de Portugal na 1ª Guerra Mundial foi, em minha opinião, um erro estratégico muito grave, cujo objectivo foi procurar legitimar internacionalmente uma república ainda vacilante, mas que teve efeitos colaterais perversos, nomeadamente o número de soldados mortos, o colapso das finanças públicas e o aumento vertiginoso da dívida externa.
O Escudo perdeuvalor rapidamente, condicionando fortemente o poder de compra e gerando uma inflação galopante, o que provocou escassez e fome.
Para além disso, o movimento sindical, influenciado por sectores anarquistas, organizava greves violentas e atentados à bomba com uma regularidade preocupante. O sentimento generalizado era de que o país se encontrava à beira de uma guerra civil permanente.
Com a 1ª República, acentuou-se também o anticlericalismo, existente em muitos sectores republicanos; a perseguição à Igreja Católica assustou não somente a população rural, como também as classes sociais urbanas mais conservadoras, que viam no regime uma ameaça aos seus valores tradicionais.
Afonso Costa, primeiro-ministro, previa que em duas ou três gerações não haveria mais católicos em Portugal.
Os acontecimentos de Fátima de 1917 e uma profunda religiosidade do povo português, contrariaram essa previsão.
Influenciados pela ascensão do fascismo de Mussolini em Itália e da ditadura também de matriz fascista de Miguel Primo de Rivera em Espanha, os oficiais começaram a encarar a intervenção militar como o único desfecho para “regenerar” a nação.
Este ambiente de ruptura permitiu que o general Manuel Gomes da Costa iniciasse e liderasse um levantamento militar em Braga quase sem oposição, comandando tropas do exército (cerca de 25.000 homens) e marchando cerca de 400 quilómetros até Lisboa.
Perante o avanço militar irresistível, o governo liderado por António Maria da Silva demitiu-se, entregando o poder.
Inicialmente, foi formada uma junta militar, mas a situação levou à ascensão política do ex-seminarista e professor de Direito de Coimbra, António de Oliveira Salazar.
Dois anos depois, em 1928, Salazar tornou-se Ministro das Finanças e, em 1932, foi nomeado Primeiro-Ministro pelo presidente Óscar Carmona, estabelecendo um regime de matriz fascista que viria a ser conhecido como Estado Novo.
A ditadura estabelecida após o 28 de Maio de 1026 durou quase cinquenta anos, até ser derrubada pela Revolução do 25 de Abril de 1974.