Às vezes, um gesto tão pequeno como um toque acidental revela muito mais sobre o estado da nossa sociedade do que imaginamos
O mês passado, quando regressava de Paris, depois de dias intensos a caminhar pela cidade, a dormir pouco e a tentar aproveitar cada momento da viagem, cheguei àquele ponto inevitável das viagens: o momento em que só queremos regressar a casa, ao nosso espaço, ao nosso descanso.
O voo correu normalmente. Nada de extraordinário. Mas foi já no final do percurso, depois de aterrar em Lisboa, que aconteceu algo aparentemente banal, e que, ainda assim, me deixou a pensar.
Depois de sair do avião, fomos transportados de autocarro até ao terminal. No momento de sair, com a minha mochila às costas, toquei sem querer no ombro de uma senhora que estava ao meu lado. Foi um toque leve, claramente acidental, daqueles que acontecem todos os dias em qualquer aeroporto do mundo, onde centenas de pessoas circulam com malas, mochilas e pressa.
De imediato, pedi desculpa.
A senhora olhou para mim com um ar de profunda reprovação e abanou a cabeça. Pensei que talvez não tivesse ouvido e voltei a pedir desculpa, explicando que tinha sido sem querer. Mas a reação manteve-se: um olhar duro, um gesto de desaprovação e uma atitude de clara irritação.
Seguiu caminho como se tivesse sido alvo de uma grande ofensa. Confesso que fiquei surpreendido. Não pelo incidente em si , porque não houve, de facto, incidente nenhum, mas pela forma como muitas pessoas hoje parecem reagir à vida e aos outros.
Vivemos numa sociedade onde cresce, cada vez mais, uma espécie de arrogância silenciosa. Há pessoas que caminham pelo mundo com o nariz empinado, como se estivessem permanentemente acima dos outros, como se qualquer pequeno episódio do quotidiano fosse uma afronta pessoal. Um toque acidental transforma-se numa ofensa. Um pedido de desculpa deixa de ter valor. E a simples convivência humana parece tornar-se um exercício de tensão.
Pergunto-me, muitas vezes, o que está por trás disto.
Talvez seja o stress.
Talvez o cansaço da vida moderna.
Talvez frustrações acumuladas.
Ou talvez uma cultura cada vez mais centrada no ego, onde muitos acreditam que o mundo gira exclusivamente à sua volta.
O que me inquieta não é o episódio em si, que é insignificante. O que me inquieta é aquilo que ele revela sobre o nosso tempo: uma crescente incapacidade de lidar com os outros com normalidade, tolerância e, sobretudo, com alguma leveza.
Todos cometemos pequenos erros no dia a dia. Todos nos cruzamos, esbarramos, interrompemos ou atrapalhamos uns aos outros sem intenção. Faz parte da vida em sociedade.
É por isso que existem palavras simples como “desculpe”.
Mas, para que uma sociedade funcione, também é preciso algo igualmente simples: saber aceitar um pedido de desculpa.
Talvez precisemos, de vez em quando, de baixar um pouco o nariz, aliviar o peso do ego e lembrar que, no fundo, estamos todos apenas a tentar chegar ao mesmo lugar: viver em comunidade, com mais amor e paz.