Um caso recente em Espanha suscitou esta reflexão. Não apenas pelo drama humano que envolve, mas porque expôs, de forma dura, uma pergunta que nenhuma sociedade séria pode evitar: até onde está disposta a ir quando o sofrimento deixa de ter resposta fácil?
Há uma distinção que não pode ser apagada. Uma coisa é reconhecer que a clínica tem limites, evitar obstinação terapêutica e acompanhar com dignidade uma situação irreversível. Outra é provocar intencionalmente a morte. No primeiro caso, aceita-se que nem tudo pode ser travado. No segundo, a morte deixa de ser consequência da doença e passa a ser uma decisão humana, validada e executada.
É aqui que o problema deixa de ser apenas clínico ou individual. Quando a morte provocada deixa de aparecer apenas associada ao fim iminente da vida e começa a surgir em contextos de sofrimento grave, incapacidade adquirida, dependência ou desespero persistente, muda o que a sociedade passa a aceitar. E isso tem consequências que vão muito além do caso concreto.
Fala-se muito de autonomia. Mas ninguém decide fora da sua história, da sua dor, do seu medo ou da esperança que ainda conserva. A liberdade humana não existe separada das circunstâncias em que é exercida. Quanto maior é a vulnerabilidade, maior deve ser a prudência da resposta coletiva. Uma sociedade decente não baixa a proteção precisamente quando a fragilidade aumenta.
Esta é também uma questão de direito. Em Portugal, a Constituição da República Portuguesa coloca a dignidade da pessoa humana e a inviolabilidade da vida no centro do ordenamento. E o Tribunal Constitucional tem chamado a atenção, várias vezes, para a insuficiente clareza dos critérios legais propostos nesta matéria. Quando estão em causa decisões irreversíveis sobre a vida, não basta invocar compaixão. É preciso ter critérios firmes, limites claros e garantias reais.
O mesmo se passa no plano penal. O nosso ordenamento pode compreender melhor situações extremas, mas não transforma a eliminação da vida em conduta legítima. O sofrimento conta, mas não apaga a ilicitude. Isso revela uma ideia essencial: a vida humana não pode ser tratada como um bem disponível ao ponto de o direito aceitar a sua eliminação como resposta normal ao sofrimento.
É por isso que esta discussão não pode ficar prisioneira da emoção do momento. O que importa perceber é o caminho que se abre. Quando a morte começa a surgir como solução compreensível para vidas marcadas pela dor, pela dependência ou pelo desespero, altera-se o centro moral da comunidade. Começa-se por falar de exceções. Acaba-se a mudar a forma como se olha para os mais frágeis.
Uma sociedade mede-se pela forma como protege quem mais precisa dela. E o verdadeiro teste não está apenas em saber tratar. Está em saber cuidar sem desistir.
Artigo escrito em conjunto com a deputada do Chega, Idalina Durães