Aproxima-se mais um aniversário da Revolução dos Cravos e Almada prepara-se para celebrar. E não haveria problema algum, não fosse o caso de o concelho estar entregue à sua sorte.
O município que organiza celebrações é o mesmo que aumenta em mais de dez vezes o preço que os munícipes pagam para a manutenção dos ossários. Este valor, que até ao início do ano rondava os 6,50 euros, subiu brutalmente para quase 80 euros.
O que é compreensível, porque, de outra forma, como é que se poderia gastar milhares de euros em concertos de celebração do 25 de Abril?
Almada é também o concelho onde a construção do novo centro de saúde do Laranjeiro e Feijó continua a ser adiada, ano após ano, e o concelho onde a Costa de Caparica nem centro de saúde tem. Mas é compreensível: o dinheiro não chega para tudo e é preciso economizar para pagar o fogo-de-artifício a celebrar o 25 de Abril.
Os jovens de Almada frequentam estabelecimentos de ensino degradados. Os alunos da Escola Secundária Anselmo de Andrade reclamam falta de condições para aprender porque chove no interior do pavilhão e no refeitório, locais onde as estruturas têm ferrugem e janelas partidas. Os estudantes da Escola Secundária António Gedeão protestam contra a falta de condições, denunciando que têm aulas à chuva e que têm existido acidentes nas escadas devido ao mau estado das estruturas. E o problema, dizem, não é de agora, já se arrasta há vários anos – Inês de Medeiros não foi eleita presidente da Câmara no ano passado, mas em 2017!
Os alunos não têm condições para estudar, mas o que realmente preocupa a presidente da Câmara Municipal de Almada é que eles tenham atividades de celebração do 25 de Abril, como o projeto ‘E em vez do Medo?’. E eu pergunto: e em vez da falta de condições das escolas? E em vez de propaganda política?
Almada é também o concelho onde os agentes da PSP trabalham numa esquadra com infiltrações de tamanha ordem que o último andar da esquadra do Pragal está interdito porque chove lá dentro. O estado do edifício é visível a partir do exterior, qualquer pessoa que passe na rua vê o que ali se passa, mas da parte do executivo municipal o que temos é silêncio.
Mas a degradação dos edifícios não é exclusiva das escolas e das esquadras. Também os mercados municipais estão sem condições de dignidade para quem lá trabalha e para quem lá faz as suas compras, enquanto os bairros ilegais vão crescendo, sendo já os bairros do Penajoia e do Raposo os maiores do país. Mas o importante é um conjunto de atividades culturais para celebrar o 25 de Abril.
Almada vai maquilhar-se e vestir o fato de gala para celebrar a Revolução dos Cravos. Porém, por baixo das decorações bonitas e apelativas está um concelho sem rumo que, a cada dia que passa, vai apodrecendo, tanto a nível de estruturas como de valores sociais devido ao crime que vai, pouco a pouco, caracterizando as ruas de Almada.
Sobre isto não há uma palavra, mas para o 25 de Abril há discursos. As prioridades em Almada estão trocadas.