Um homem integro, feito de trabalho, convicções e amor

Um homem integro, feito de trabalho, convicções e amor

Um homem integro, feito de trabalho, convicções e amor

14 Abril 2026, Terça-feira
Professor e Investigator em Educação

Há vidas que não cabem em datas, nem em currículos, nem sequer em memórias organizadas. Há vidas que se impõem pela força do carácter, pela coerência dos valores, pela forma como moldam os outros. A vida do meu pai é uma dessas.

José António Bico, nasceu a 18 de janeiro de 1939, no Seixo Amarelo, perto da Guarda, um daqueles lugares onde a dureza da terra ensina cedo o valor do esforço. Ainda jovem, partiu para Setúbal, como tantos outros, à procura de um futuro que não lhe estava garantido, mas que estava disposto a construir com as próprias mãos.

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E construiu.

Começou numa loja de vergas, pertencente a um primo, num tempo em que trabalhar era, acima de tudo, resistir. Passou pela Escola Comercial e Industrial de Setúbal, como contínuo, e pelas Finanças, sempre com a mesma postura: seriedade, responsabilidade e dignidade. Mas foi na fábrica da Socel, na Mitrena (mais tarde Portucel) que deixou uma marca mais longa, mais profunda, mais sua.

Como tantos homens da sua geração, não se limitou a um único caminho. Fora do trabalho, tinha outro ofício: colocava alcatifas por conta própria. Não por ambição desmedida, mas por um sentido quase instintivo de dever para com a família, para com o futuro dos filhos, para com a vida que queria garantir aos seus.

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Mas reduzir o meu pai ao trabalho seria injusto.

Foi também homem de causas e de comunidade. Dirigente do União de Futebol Comércio e Indústria, viveu o futebol com paixão, aquela paixão genuína, quase visceral, que faz parte da identidade de Setúbal. Militante ativo do Partido Socialista nos tempos fervilhantes que se seguiram ao 25 de Abril, assumiu responsabilidades na Concelhia e na Distrital, acreditando, com convicção, que a política era uma forma de construir um país melhor.

E foi ainda Chefe de Escuteiros durante muitos anos no Agrupamento 484 – Anunciada. Ali, longe dos holofotes, formou gerações. Ensinou valores que não se aprendem nos livros: lealdade, entreajuda, disciplina, respeito. Valores que hoje reconheço como sendo também os pilares da sua própria vida.

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Aos 54 anos, o destino impôs-lhe uma prova brutal. Um acidente na fábrica retirou-lhe quase toda a visão. Para muitos, seria o fim de uma vida ativa. Para ele, foi apenas mais um combate. Lutou. Viajou até Londres, submeteu-se a várias cirurgias, recuperou parte daquilo que parecia perdido.

Mas a vida, por vezes, é injusta de uma forma difícil de aceitar. Anos depois, na praia de Albarquel, foi vítima de um acidente dentro de água que lhe retirou definitivamente a visão.

E, ainda assim, nunca perdeu o essencial: a capacidade de estar presente, de ser pai, de ser exemplo.

Teve três filhos. E deu-lhes aquilo que nunca teve: a oportunidade de estudar, de escolher, de sonhar. Não através de discursos, mas através do exemplo diário, silencioso, firme, inabalável.

Nem sempre estivemos de acordo. Houve debates acesos, inevitáveis, talvez até necessários. Ele, benfiquista convicto e socialista de alma; eu, vitoriano e com outras opções políticas. Mas essas diferenças nunca nos separaram. Pelo contrário, ensinaram-me algo mais profundo: que os valores não estão na cor de um clube ou na sigla de um partido, mas na integridade com que se defendem as nossas convicções.

A 23 de agosto de 2017, depois de um jantar de família, morreu nos meus braços.

Há momentos que nos definem. E há perdas que não se ultrapassam, apenas se aprendem a carregar.

O meu pai foi, acima de tudo, um homem inteiro. Um homem que nunca desistiu, mesmo quando a vida lhe retirou quase tudo o que era visível, mas nunca aquilo que verdadeiramente importa.

Hoje, continuo a encontrá-lo nas decisões que tomo, nos valores que defendo, na forma como olho para o mundo. E percebo que, no essencial, ele nunca partiu.

Permanece.

Nos gestos.
Na memória.
E, sobretudo, naquilo que fez de mim.

Nota biográfica:

Jorge Miguel dos Santos Bico é professor do Ensino Secundário de Física e Química e docente no Ensino Superior na área da Organização e Gestão Escolar. Exerce funções de subdiretor em agrupamento de escolas e desenvolve investigação no âmbito do doutoramento em Tecnologias de Informação e Comunicação na Educação, centrada na acessibilidade e inclusão em museus de ciência, com enfoque no desenvolvimento de soluções baseadas em TIC para promover a aprendizagem científica de crianças com deficiência visual em contextos de educação informal.

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