O Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 confirma uma ideia essencial: Portugal continua a ser um país seguro, com diminuição da criminalidade violenta e grave (-1,6%), aquela que mais impacta a vida e a perceção de insegurança das pessoas.
No distrito de Setúbal, os dados apontam para um crescimento da criminalidade geral de 1,7%, abaixo da média nacional de 3,1%. Este indicador deve ser lido com rigor. Não há um agravamento estrutural, mas há sinais que exigem atenção, sobretudo quando olhamos para a perceção de segurança dos cidadãos.
Porque essa perceção não se constrói apenas com estatísticas globais. Constrói-se no quotidiano, e é particularmente influenciada por fenómenos com maior impacto social, como os roubos, as ofensas à integridade física ou outros episódios de criminalidade violenta. Mesmo quando estes não aumentam de forma expressiva, a sua visibilidade e gravidade geram um sentimento de insegurança que não pode ser ignorado.
Ao mesmo tempo, o aumento da criminalidade geral deve ser enquadrado: resulta, em parte, de maior esforço e capacidade operacional por parte das forças de segurança. Estamos perante uma criminalidade cada vez mais diversa e sofisticada, com crescimento em áreas como o crime económico, digital e organizado, o que exige respostas diferentes das tradicionais.
Neste contexto, o reforço das forças de segurança é determinante. Desde o início do atual ciclo governativo, que há poucos dias assinalou dois anos, têm sido adotadas medidas relevantes como a melhoria das condições salariais e materiais, como são exemplos o aumento do suplemento de risco, a entrega de viaturas à PSP e à GNR, a reabilitação e construção de esquadras e postos, e a abertura de concursos para novos agentes e militares. Este esforço contribui para reforçar a presença no terreno e a capacidade operacional, algo particularmente importante em territórios com as características de Setúbal.
Mas a segurança também se constrói ao nível local. A criação da Polícia Municipal de Setúbal, cujo regulamento se encontra em consulta pública, constitui um passo positivo. Importa, contudo, enquadrar corretamente o seu papel: não substitui as forças de segurança, mas complementa-as. Ao assumir funções de fiscalização administrativa, ordenamento do trânsito e estacionamento, segurança de bens e edifícios municipais, permite libertar a PSP e a GNR para o combate à criminalidade, reforçando simultaneamente o policiamento de proximidade.
A esta abordagem deve acrescer uma aposta clara na prevenção. A instalação de sistemas de videovigilância em pontos críticos do concelho pode desempenhar um papel relevante, quer na dissuasão de comportamentos criminosos, quer no apoio à investigação, desde que devidamente enquadrada e articulada com as forças de segurança e em estrito cumprimento dos direitos dos cidadãos.
Setúbal não enfrenta uma situação de criminalidade descontrolada como alguns tendem a querer transmitir para a opinião pública, mas enfrenta um contexto que exige consistência e capacidade de adaptação. Entre a estabilidade dos dados e a exigência da perceção pública, o caminho faz-se com mais meios, melhor organização e maior proximidade.
É nesse equilíbrio que se constrói a segurança — e é aí que se mede a liderança.