Retrato de um imigrante que quer retribuir à comunidade e que já se rendeu aos pastéis de nata, ao bacalhau e ao Benfica
As subempreitadas da Vinci, nas áreas de construção e logística, levaram-no a trabalhar em países como Índia, Emirados Árabes Unidos (Dubai), Catar, Kuwait, Omã, Nova Zelândia, Países Baixos, Alemanha, Dinamarca, França e Portugal, onde acabou por se estabelecer desde agosto de 2021, a mais de oito mil quilómetros de distância da sua terra natal. Chama-se Dharam Raj Bhandari, tem 42 anos, e é o primeiro nepalês a integrar uma corporação de bombeiros voluntários no nosso país, a do concelho da Moita.
Veio de longe, da zona de Lumbini, distrito de Rupandehi, Nepal, e na passada quinta-feira passou a ser bombeiro de 3.ª na corporação da Moita, em cerimónia que até justificou a presença do embaixador do país nepalês em Portugal, Prakash Mani Paudel.
Raj, como é conhecido, cumpria assim um forte desejo de poder retribuir à comunidade a forma como foi recebido. “Gosto de ajudar os outros. Aqui é tudo melhor. Já cá está a minha família ”, diz o nepalês, que recebeu há um ano em Portugal a mulher e o filho de 6 anos. Hoje residem no Barreiro e Raj trabalha na Machrent, no concelho de Palmela.
Dois dias por semana frequenta aulas de português em Santo António da Charneca, para ultrapassar definitivamente a barreira linguística e alcançar uma integração plena, pela qual se esforça. “Aqui [a integração] é mais rápida. Há mais oportunidades [do que no Nepal]”, salienta Raj, que elege “o pastel de nata e o bacalhau” como preferências gastronómicas. Nada de carne, bebidas alcoólicas e tabaco, face à sua religião hindu. E pouco peixe. No Nepal consome-se “mais legumes”, conta.
O criquete é o desporto favorito, mas em Portugal segue o futebol e tem uma paixão. “O Benfica é o ‘mais melhor’”, atira, para justificar de seguida a escolha pelos encarnados: “Foi desde que vi o ‘eagle’ [a águia] a voar no estádio antes de um jogo. Gostei”. E a preferência já tem seguidor na família. O filho joga na escola de futebol do Benfica, no Galitos do Barreiro.
Mas, o foco de Raj é a corporação dos Bombeiros da Moita. “Ele procurou-nos e entrou aqui em outubro de 2024. Fez um ano de formação e desde janeiro que é bombeiro. Está sempre a pedir-me para vir fazer serviços. Durante o mês faz cinco ou seis serviços voluntários. Tem muita vontade de ajudar as outras pessoas”, realça Pedro Ferreira, Comandante dos Bombeiros da Moita, que lhe abriu as portas do quartel.
“Só lhe disse que tinha de aprender português e ele está muito melhor nesse aspecto. Os bombeiros são inclusivos. Nós aqui recebemos todas as pessoas que queiram ajudar os outros. Há pessoas que utilizam os bombeiros para benefício próprio. Não é o caso do Raj e não é o caso de muita gente que temos aqui de outros países. Temos aqui guineenses, angolanos, brasileiros… vêm cá para ajudar os outros”, defende o comandante, que, a concluir, não esconde orgulho pela dedicação dos seus homens e por liderar uma corporação multicultural.