Responsável pelo grupo empresarial considera que é preciso preparar o País e a região para eventuais faltas de água
António Carmona Rodrigues, presidente do Grupo Águas de Portugal (AdP), esteve em Setúbal para apresentar o produto final do estudo de resiliência hídrica da Península de Setúbal, que esta mesma entidade promoveu.
O responsável considera que a região, bem como o País, têm de estar mais bem preparados para eventuais faltas de água, para que não haja dependência dos anos com mais ou menos seca. Relativamente à região admite que os nove municípios da península estão hoje mais cientes das questões relacionadas com a água, e que a AdP está disponível para ajuda os concelhos a encontrar soluções para eventuais problemas.
Considera também que os municípios (oito dos nove) têm reconhecido o trabalho da Simarsul no tratamento das águas residuais e que, para que o plano seja implementado, é necessária uma boa articulação entre todas as entidades.
A AdP tem peso na decisão de Almada passar a ser abastecido pela barragem de Castelo de Bode?
Se me pergunta se temos voto na matéria, não. Quem tem voto na matéria são os municípios, com as competências e atribuições que têm por lei. Na realidade, o Grupo Águas de Portugal, aqui na Área Metropolitana de Lisboa, sempre se confinou ao Tejo – do Tejo para Norte, e não do Tejo para Sul.
O que este estudo vem mostrar é que a situação atual não é crítica no sentido de não haver água suficiente no aquífero para satisfazer as necessidades de água. Agora, face às expectativas de crescimento da população e dos projetos estruturantes que estão previstos, os cenários que se avizinham nos próximos 20 anos, a que se somam também os cenários de mudança climática dados pelo IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] de agravamento das condições climatéricas, levam a que podemos estar a entrar numa fase em que não temos água suficiente.
É isso que este estudo aqui mostra, há um princípio genérico, que vem da política europeia em matéria de água, que é o princípio da precaução, e temos de estar precavidos e não sermos apanhados amanhã numa situação em que, afinal, não temos água.
E, por precaução, temos de começar a pensar qual é o risco de toda esta região com estes desafios e cenários de crescimento pode ter em termos de amanhã não ter água suficiente. Pensar, para além de uma única origem, que é sempre um risco, podemos recorrer às águas para reutilização ou às águas superficiais vindas, digamos, de estruturas supramunicipais – aquelas clássicas soluções que existem para, atualmente, oferecer água de uma forma diversificada, mas que dá garantia de resiliência e de sustentabilidade.
A estratégia ‘Água que Une’, apresentada há um ano, vem justamente também nesse sentido. Ou seja, não é aceitável para nós portugueses – seja no Algarve, na Península de Setúbal ou em Trás-os-Montes –, estarmos sempre com o credo na boca: se não chove não temos água, não podemos ter isso.
Temos de ter uma solução resiliente e sustentável que nos garanta que, qualquer que seja o ano, o mais seco ou o menos seco, estaremos sempre preparados para, em primeiro lugar, satisfazer as necessidades de água da população.
Considera que os nove municípios da Península de Setúbal estão alinhados para trabalhar para essa questão?
Não sei se estão alinhados, mas acho que estão todos hoje muito mais sensibilizados ao problema. Como no outro dia um autarca destes municípios disse, os limites da gestão hídrica, ou da disponibilidade hídrica, não é o mesmo limite administrativo do município. Portanto, a água que é utilizada no município muitas vezes não é só gerada nesse próprio município.
É natural, como disse o exemplo da EPAL [Empresa Portuguesa das Águas Livres], há 158 anos houve um rei que determinou uma solução supramunicipal, fomos buscar água ao norte de Santarém para trazer para Lisboa. Isto já foi há 158 anos, justamente reconhecendo que só o território da cidade em si não gerava os recursos suficientes para a população. Portanto, são soluções normais.
Acho que hoje, mais do que nunca, e mais do que até num passado recente, há uma abertura generalizada de todos os nove municípios da península para repensar o problema. Este estudo acho que os pode ajudar a isso.
Ao final do dia serão sempre os municípios e as entidades locais a implementar grande parte destas intervenções que são sugeridas pelo estudo. De que forma é que a AdP pode ajudar neste sentido?
Não são só os municípios. Os municípios têm sempre uma palavra central nisto, até pela competência legal que têm, agora, o estudo mostra que isto tem de ser também um esforço que tem de passar pela Agência Portuguesa do Ambiente, o Grupo Águas de Portugal, os municípios são os primeiros e os últimos interessados.
Mas, para chegar lá, obviamente, a APA tem um papel determinante e, a AdP tem um papel determinante para ajudar. Por exemplo, através da assinatura do protocolo de cooperação que foi assinada entre o grupo, da EPAL e a Câmara da Almada. Mas sei que há outros municípios também já interessados em poder beneficiar dessa ligação.
Temos um papel de disponibilidade total e abertura para colaborarmos nas soluções que são necessárias, já temos aqui a Simarsul, que é um caso em que já servimos oito dos nove municípios na recolha e tratamento das águas residuais em alta, e tem funcionado com reconhecimento de bons resultados por parte justamente dos municípios.