26 Setembro 2022, Segunda-feira
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“A Última Refeição” foi um teatro da Terra com cheirinhos de Mãe Coragem

Peça com a interpretação de Maria João Luís foi apresentada no Fórum Luísa Todi, em Setúbal

 

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Esta peça contou com a brilhante interpretação de Maria João Luís, uma actriz que inspira pela sua maturidade e presença no palco, sendo sábia dos tempos, dos avanços, dos gritos, das mudanças das canções. Como muitas vezes em Brecht, lembro As Espingarda da Mãe Carrar, em que Carrar cria a consciência e constrói o enredo, enquanto prepara o pão. A tomada de consciência é quando o pão está pronto, como aqui, no momento em que o Frango na Púcara sai do forno.

Um espectáculo cozinhado e feito com amor, tal como Helen Weigel cozinhou o “Frango na Púcara”, na esperança que Brecht regressasse ao mundo dos vivos. Weigel é uma mulher revoltada porque, apesar das traições do marido, agora que ele está morto, só o pode amar nas palavras.

Maria João Luís quebra os estereótipos do teatro e, elegantemente, vira várias vezes as costas ao público e cria silêncios que falam, com um texto brilhante de António Cabrita. Humildemente partilha com o público o anseio de ter honrado no palco, enquanto actriz, o nome de Bertholt Brecht, dramaturgo e encenador alemão, grande senhor do teatro que chamou o público ao centro da conversa. Ambos directores da grande Companhia de Teatro Berliner Ensemble (Berlim).

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A actriz cria uma simbiose entre quatro cenários. Aquele em que sai algumas vezes de cena, e que não existe, onde está o fogão com a púcara a cozinhar o frango, o da bancada da cozinha onde o frango é confeccionado, o que pertence ao espaço do casal com Brecht no centro dentro do caixão e o da frente da bancada da cozinha sempre que a actriz conversa com o público no seu monólogo.

Um grande momento neste palco surge quando a actriz recria, na arte do teatro, “O Grito” de Edvard Munch, versão em Bertolt Brecht do grito mudo, o grande grito das entranhas, que apesar de não ter som, faz tremer o mundo. O grito estridente que Helen Weigel solta silenciosamente com a boca aberta e os braços elevados em arco sobre a cabeça, porque ela também precisa de salvação. Aquele “Frango na Púcara” é cozinhado para os dois, pois para Brecht é a salvação da morte e para Weigel a salvação da ausência de Brecht.

A melhor actriz de Brecht em Portugal aos 57 anos segue todas as regras do Teatro Brechtiano. A canção resumindo a cena, o efeito V de distanciação, as quatro paredes incompletas que o encenador dirigiu muito bem. Bravo António Pires, normalmente encenador do Teatro do Bairro em Lisboa.

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Sinopse

“O espectáculo começa com música de piano de fundo (direcção musical de João Lucas) segundo o programa “Helena dispõe os in­gre­di­en­tes sobre a banca e deita mãos à obra: preparar uma última refeição para Bert. Escolheu fazer-lhe frango na púcara com temperos à Mãe Coragem. Assim começa este monólogo in­ter­pre­tado por Maria João Luís, escrito por António Cabrita e encenado por António Pires. Enquanto cozinha, Helena vai dis­cor­rendo sobre a sua vida com Bert: as grandes alegrias por par­ti­lha­rem de um trans­cen­dente sonho teatral e por se con­fi­a­rem in­con­di­ci­o­nal­mente no palco, numa sintonia que os levou ao êxito, e por outro lado o so­fri­mento com as traições con­ju­gais, o carácter de pinga-amor do Brecht e a sua noção alargada de “família”; a dureza da vida no exílio; o difícil regresso a Berlim e o seu papel de “mãe” para manter Bert no equi­lí­brio propício às suas ne­ces­si­da­des cri­a­ti­vas. Bert já está no caixão, mas ela ficou de res­pon­der à morte na manhã seguinte, para o subs­ti­tuir ou não, enquanto nesse caso, a Morte o res­sus­ci­ta­ria. Em de­ses­pero, resolveu fazer o prato que Bert mais gostava e que con­si­de­rava digno de res­sus­ci­tar um morto – talvez assim ela não precise sa­cri­fi­car-se, pensa”.

Ficha técnica e artística

Texto: António Cabrita; Encenação: António Pires; Com: Maria João Luís; Cenografia: José Manuel Castanheira; Composição e Direcção Musical: João Lucas; Desenho de Luz: Pedro Domingos; Produção executiva: Diana Especial; Assistência de produção: Filipe Gomes; Direcção de Produção: Pedro Domingos; Coprodução: Teatro da Terra, Casa das Artes de V. N. de Famalicão, Teatro Municipal de Bragança, São Luiz Teatro Municipal; Parceria: Câmara Municipal do Seixal; Estrutura Financiada por República Portuguesa – Cultura / Direcção-Geral das Artes; Apoio à Divulgação: Turismo de Lisboa; Duração aproximada: 80 min; Classificação etária: M/12

Observação de Teatro:

José Gil – Professor Adjunto de Teatro da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal Actor e Encenador

Maria Simas – Actriz do Teatro do Politécnico IPS e Mestranda

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