20 Maio 2024, Segunda-feira

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Um vulcão em erupção

Um vulcão em erupção

Um vulcão em erupção

A sociedade hoje encontra-se como seres que habitam os arredores de um vulcão em erupção. Observa de mãos quase atadas uma lava fervente e perigosa que desce com uma potência que aumenta a cada segundo e se alastra pelo mundo.

Mas até que ponto este fenómeno vulcânico foi realmente uma surpresa? O mundo tem acompanhado a ascensão da extrema-direita no cenário político, tornando-se num fenómeno internacional. Em 2022, a Itália escolheu Giorgia Meloni como primeira-ministra, que defende pautas conservadoras de direita radical, promovendo o conceito de família tradicional e da moralidade, além de uma abordagem bastante rigorosa em relação à imigração. No mesmo ano, Viktor Orbán foi reeleito para o seu quarto mandato consecutivo. O líder húngaro tem trazido muita dor de cabeça para a UE, com leis contrárias a igualdade de género, ou com a recusa em receber refugiados no seu país, ou ainda com a recente criação do polémico ‘gabinete de soberania’, que viola princípios constantes nos Tratados europeus, como o princípio da democracia, o direito à vida privada, a proteção dos dados pessoais, a liberdade de expressão, de informação e de associação, entre outros.

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A Polónia também foi comandada durante quinze anos pelo PiS – Partido Lei e Justiça, com um viés de extrema-direita, tendo deixado o poder somente em novembro de 2023. Aliada da Hungria, também trouxe muitos dissabores quanto ao respeito das regras europeias, como por exemplo a inacreditável criação de “zonas livres de LGBT”, numa total afronta â igualdade de género. A somar a esta lista, o slogan do partido de extrema direita na Suécia, que curiosamente intitula-se “Democratas Suecos”, conseguindo o segundo lugar no pódio eleitoral, dizia: “o perigo vem de fora”, numa alusão explícita aos imigrantes e refugiados que vivem naquele país. Na Alemanha, a AfD consolidou-se como uma das maiores forças políticas, defendendo uma revisão histórica que a sociedade alemã carrega nos ombros, desde a segunda guerra mundial, com os horrores do Holocausto, argumentando que um excesso de responsabilidade pode levar a uma visão negativa da sua identidade.

As eleições legislativas de 2024 em Portugal testemunharam um aumento na popularidade do partido de direita radical, que conseguiu quadruplicar os resultados da última eleição, passando de 12 para 48 deputados. O partido, fundado em 2019, garantiu 1,1 milhões de votos. O crescimento do Chega exemplifica como as narrativas extremistas têm vindo a ganhar força, representando um desafio à democracia.

 

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Os discursos que promovem um movimento racista e xenófobo, verbalizados de forma mais contundente pelos seus líderes, têm sido abraçados pelos seus eleitores. A insegurança toma conta daqueles que não vislumbram melhores oportunidades e que optam pela mudança. Afinal, se não houver uma viragem radical, será mais do mesmo. O discurso da extrema-direita, por culpa do que hoje assistimos, nomeadamente escândalos de corrupção de partidos que se revezam no poder, angaria cada vez mais votos.

O desenrolar das eleições europeias, com as eleições para o Parlamento Europeu à porta, será o termômetro para confirmar esta febre, com a subida da extrema direita, que poderá se transformar na terceira força política do hemiciclo europeu. Em França, Marine Le Pen, da

Frente Nacional, partido protecionista e nacionalista, vibrou com o resultado do seu parceiro português nas eleições do dia 10 de março, antevendo o fortalecimento da extrema direita no Parlamento Europeu, com a certeza de que haverá novos colegas portugueses em Estrasburgo, após as eleições de 9 de junho.

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Se olharmos para outra instituição europeia, o Conselho Europeu, que dá a condução política para este bloco regional, ao seu mais alto nível, já se contabiliza uma dezena de Chefes de Governo mais alinhados à direita, com vocação mais nacionalista. O avanço da extrema- direita num continente que conquistou algo inédito, como a livre circulação de pessoas, reflete-se num crescente sentimento antiglobalização e nacionalista, com a intenção não de privilegiar a abertura das fronteiras, mas o seu encerramento e controlo. Isso levanta preocupações sobre o futuro da União Europeia, tal como foi idealizada, com a assinatura do Tratado de Roma, há quase sete décadas.

Os valores fundamentais, decantados no artigo 2º do Tratado da União Europeia, correm o risco de serem engolidos pela lava da retórica soberana e autoritária, com uma intensidade sísmica que ganha força e vai minando as conquistas de mais de um século, na defesa dos direitos humanos, da liberdade de expressão, da igualdade, entre tantas outras. E assim como o magma fervente que se acumula e assusta todos os que habitam à sua volta, antes mesmo da erupção vulcânica, o cenário político está a ser confrontado com a propagação de líderes populistas que há muito tempo aguardam por esta nuvem de cinzas que se espalha pelo mundo. É importante dizer que eles vão escalando até ao topo do vulcão, pela via democrática!

Os resultados das últimas eleições em Portugal acompanham esta tendência. O que hoje parece ser uma ascensão é, na verdade, um movimento que pode custar muito para esta e para as próximas gerações.

Os olhares devem estar atentos não apenas aos sinais mais evidentes, mas também às condições sociais e políticas, pois ao permitirem que a lava e as cinzas se propaguem, o solo ficará contaminado e dali já não nascerá bons frutos.

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