23 Maio 2024, Quinta-feira

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Sim, em Sesimbra havia “folclore”!

Sim, em Sesimbra havia “folclore”!

Sim, em Sesimbra havia “folclore”!

Tenho ouvido, infelizmente, com alguma frequência que “em Sesimbra não havia folclore”, algo profundamente inadequado tendo em conta o próprio sentido da palavra.

Primeiramente, usamos muitas vezes o termo «Folclore» sem rigor conceptual, e sem nos apercebermos da variedade de manifestações que, à falta de melhor denominação, se associam a esta palavra. Ela surge de um neologismo da língua inglesa que designa o conhecimento de um povo que se transmite oralmente de geração em geração. Em seguida, lá porque algumas pessoas das gerações atuais não tenham recebido testemunhos da tradição oral pelas gentes da vila de piscatória, não significa que estes não tenham tido formas e maneios de se divertirem e afogarem as mágoas da sua dura rotina. Para compreender melhor este fenómeno, que era extensivo a todo o território nacional, estão ao dispor os trabalhos etnomusicais de Armando Leça, Michel Giacometti ou José Alberto Sardinha, entre outros etnógrafos.

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Da tradição oral, conseguiu-se recuperar a gravação de um relato feito em 1985 numa das várias ações de recolha na vila piscatória de Sesimbra promovidas pelo antigo grupo folclórico da ADQC. O seu conteúdo continha algumas histórias quotidianas, pregões, versos e quadras comparativas, cantigas ao desafio e um baile solto/desagarrado em estilo Verde Gaio intitulado de “Sou Casado” que fora posteriormente ensinado. Algum deste conteúdo avivou recentemente a memória à D. Amália e à D. Rosário – utentes do Centro de Convívio da Fonte Nova – que nos confirmaram e cantaram algumas dessas quadras. Já antes, na formação do Grupo Etnográfico de Danças e Cantares da Região de Sesimbra (inativo), foi recolhida uma brincadeira de roda intitulada de “Trinca Espinhas” – marcha executada em roda, onde se entoam quadras incentivando o roubo do par (quase sempre dando em desacato), sendo que seria nomeado como «trinca espinhas» aquele que ficasse sem par no final da cantiga, recolha que nos foi recentemente confirmada por Artur da Cunha (94 anos) que possuía ligeira memória dos bailes de roda em Sesimbra. Na mesma condição está um baile de roda agarrado, de estilo musical Polca e que, fazendo fé aos relatos populares, teve influências de pescadores sazonais oriundos do Norte ou da Beira que vinham para Sesimbra trabalhar sazonalmente, intitulado de “Valsa Maria!”. Apesar da sua forma de bailar nada ter a ver com as tradicionais valsas, o termo «valsear» era constantemente utilizado pelo povo para referir os pares que se movimentavam agarrados (Sardinha J., 2000).

A compilação dos relatos populares com a pesquisa documental, como é exemplo a obra “Gaiteiros de Sesimbra” (2022) da Associação Portuguesa para o Estudo e Divulgação da Gaita de Foles despertou-me a atenção para uma Contradança descrita por Manuel Vieira Cristão fazendo referência aos festejos do Entrudo, alegando que chegavam a juntar-se “60 [pares] (…) na Contradança no lugar de Alfarim”. Os estudos sobre a origem deste estilo coreográfico levam-nos à obra “Tradições Musicais da Estremadura” (2000) do Dr. José Alberto Sardinha, e no terreno, levam-nos ao Sr. António Fontes da Lagoa de Albufeira, pioneiro das recolhas etnomusicais no nosso concelho. Segundo os testemunhos de Libânio Borba (92 anos) e Arménio de Jesus (84 anos), esta brincadeira não faltava nos momentos de roda em volta das fogueiras na vila piscatória, assim como no repertório do «Jazzo» que animava os bailes realizados na Sociedade Santanense e no Grémio Clube Cezimbrense. Os mesmos anciãos recordam ainda o Chegadinho, baile ex-libris do concelho, e um Corridinho (ambos com origem na Chotiça) onde os pares necessitam de se agarrar melhor para equilibrar a rotação na roda à medida que o ritmo instrumental aumenta. A Valsa Inglesa, dança que carece ainda de maior aprofundamento, tem sido descrita pela exceção de serem as raparigas a convidar os rapazes para bailhar, num ato temporalmente planeado.

A somar aos registos que têm sido feitos sobre a tradição oral, o conjunto de livros e apontamentos que se encontram na Biblioteca Municipal de Sesimbra, no Arquivo Municipal e nos jornais da época, onde podemos encontrar variadíssimos factos históricos e etnográficos revelam que “em Sesimbra havia Folclore!”, e se hoje essas práticas não estão presentes na nossa memória coletiva é porque não houve mais modas recuperadas enquanto era tempo e o que foi possível recuperar não está a ser suficientemente divulgado. Apesar de vários esforços por diferentes entidades e personalidades, as nossas tradições populares estão em risco de se perder a uma velocidade muito mais rápida do que o previsto. Outro fenómeno que cria dificuldade à valorização da nossa identidade e cultura popular sesimbrense (de concelho) é o bairrismo desmedido e injustificado que, pela minha experiência no terreno, tem sido meramente expresso em assuntos de ordem administrativa e política. Na experiência que eu e a minha equipa tivemos não houve, em momento algum, qualquer dificuldade por sermos desta ou daquela freguesia, muito pelo contrário. Os mais velhos têm enaltecido o nosso trabalho de pesquisa e valorização das tradições populares do concelho de Sesimbra e são quem mais nos agradece pelo trabalho desenvolvido!

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É caso para alertar que “é mais o que nos une do que aquilo que nos separa” e por isso faz falta um equipamento onde se possa expor e divulgar as recolhas e memórias da tradição oral, os trajes e os apetrechos deste tempo, assim como a envolvência da população na preservação deste conteúdo.

Do que resta, há que priorizar e valorizar!

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