Quando os ecrãs roubam o tempo à relação.

Quando os ecrãs roubam o tempo à relação.

Quando os ecrãs roubam o tempo à relação.

3 Março 2025, Segunda-feira
Psicóloga clínica e psicoterapeuta psicanalítica

Que bom é passear e ter momentos descontraídos e tranquilos com os nossos filhos. Mas, a realidade nem sempre é assim. As crianças brincam, correm, riem, fazem barulho, “barafundam”. E quando os tentamos chamar à atenção, muitas vezes… “birram”. Os pais, claro, fazem o seu melhor. E como é constrangedor quando nos calha a nós aquele mau comportamento ou aquela birra infindável. É tão fácil, enquanto pais, cedermos às maravilhas do nosso tempo para nos “ajudarem” a resolver a situação. A questão é o preço que essa cedência terá. Infelizmente vemos muitas vezes as nossas crianças a serem geridas por ecrãs pois assim, sem dúvida, portam-se melhor. Não choram, não gritam, não desafiam… mas será que esses ecrãs conseguirão mostrar-lhes o que fazer com as suas emoções? Explicarão como se gere o tédio, frustração, má disposição e dificuldade em esperar um bocadinho? Aquele bocadinho que demora a preparar a refeição num restaurante, por exemplo. A hora da refeição é um momento simbólico de encontro, troca e construção de vínculos. O uso de ecrãs introduz um desencontro completo neste espaço de interação reduzindo a possibilidade de comunicação e fortalecimento da relação. Pode haver ainda um enfraquecimento entre o acto de comer e o prazer de saborear, tornando a refeição num acto mecânico. Quando recorremos aos ecrãs para evitar birras ou momentos de impaciência, seja durante as refeições ou noutros contextos, não estamos a ajudar a criança a aprender a desenvolver recursos psíquicos para lidar com a espera, o tédio ou a zanga. Em vez de ajudarmos e explicarmos como se faz anestesiamos a criança, o que pode levar a muitas dificuldades em lidar com a frustração no futuro. Além disso, se as crianças são distraídas com ecrãs quando sentem algo difícil em vez de aprenderem a lidar com essas emoções com a ajuda dos pais, podem desenvolver no futuro hábitos compulsivos como forma de evitar a angústia e o vazio emocional. Até para brincar, sonhar, imaginar é necessário aquele momento de espera onde o filme começa a ganhar vida por dentro e não num qualquer telemóvel ou televisor. Sublinhar ainda que se as crianças estão sempre a ser estimuladas pelos ecrãs podem desenvolver uma dificuldade em manter a atenção em actividades sem alta estimulação no futuro. Então, se queremos que as crianças se desenvolvam emocionalmente robustas e criativas, arrumemos os ecrãs, invistamos na relação, incentivemos a participação nas conversas, partilhas ou actividades criativas e recebamos as birras, o melhor que pudermos.

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