Este é um pensamento que aparece mais vezes do que se pensa ou diz. E, ao contrário do que parece, na maior das vezes não está relacionado com o desejo de morrer, mas sim com a vontade de não estar, de não ter de responder a ninguém nem a nada. De, por um instante, tudo o que pesa deixar de existir.
Este pensamento surge muitas vezes em contextos de grande exigência emocional, quando há uma acumulação prolongada de responsabilidades sem espaço real de recuperação. O que começa por ser cansaço vai-se transformando. A presença contínua, para os outros, para as tarefas e para as exigências, deixa de ser sustentável da mesma forma.
“Queria só desaparecer” aparece então como um alívio imaginado, quase como uma pausa possível dentro de algo que já não está a conseguir ser suportado.
O que torna isto difícil de reconhecer é o conflito interno que provoca.
Surge, muitas vezes, em pessoas profundamente implicadas nas suas relações, investidas nos filhos, no trabalho e na família. Pessoas que cuidam, que respondem, que se esforçam por estar, realmente, presentes. E, por isso, este pensamento entra em choque com a imagem que têm de si próprias.
Pode trazer culpa, angústia, pode ser vivido como se colocasse em causa o amor e a dedicação que têm pelos que amam.
No consultório, o que observo não aponta para ausência de vínculo, mas para a ausência de espaço interno. Aquele espaço absolutamente necessário para a saúde mental, mas que tantas vezes é ignorado ou desvalorizado. Um espaço que algumas pessoas nem chegam a considerar que deveria existir.
Quando não há possibilidade de parar, de se retirar, de não estar sempre disponível, o psiquismo acaba por procurar formas de aliviar essa pressão, mesmo que isso aconteça apenas ao nível do pensamento. E, ainda assim, aquilo que se pensa também pesa e também assusta. É neste ponto que, muitas vezes, frases como esta aparecem.
Mas, quando este pensamento começa a ser compreendido desta forma, deixa de ser vivido como uma falha ou falta de amor e passa a ser entendido como um sinal de que algo não está bem.
Ignorá-lo tende apenas a aumentar a pressão.
A dificuldade em desligar, mesmo quando existe tempo para descansar, é um dos sinais de que o desgaste já não é apenas físico, mas psíquico.
Pensar sobre isto não resolve tudo, mas pode ajudar-nos a olhar de outra forma para aquilo que está a acontecer. E, por vezes, é precisamente isso que possibilita começar a fazer diferente.