“Às vezes só queria desaparecer!”

“Às vezes só queria desaparecer!”

“Às vezes só queria desaparecer!”

1 Julho 2026, Quarta-feira
Psicóloga clínica e psicoterapeuta psicanalítica

Este é um pensamento que aparece mais vezes do que se pensa ou diz. E, ao contrário do que parece, na maior das vezes não está relacionado com o desejo de morrer, mas sim com a vontade de não estar, de não ter de responder a ninguém nem a nada. De, por um instante, tudo o que pesa deixar de existir.

Este pensamento surge muitas vezes em contextos de grande exigência emocional, quando há uma acumulação prolongada de responsabilidades sem espaço real de recuperação. O que começa por ser cansaço vai-se transformando. A presença contínua, para os outros, para as tarefas e para as exigências, deixa de ser sustentável da mesma forma.

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“Queria só desaparecer” aparece então como um alívio imaginado, quase como uma pausa possível dentro de algo que já não está a conseguir ser suportado.

O que torna isto difícil de reconhecer é o conflito interno que provoca.

Surge, muitas vezes, em pessoas profundamente implicadas nas suas relações, investidas nos filhos, no trabalho e na família. Pessoas que cuidam, que respondem, que se esforçam por estar, realmente, presentes. E, por isso, este pensamento entra em choque com a imagem que têm de si próprias.

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Pode trazer culpa, angústia, pode ser vivido como se colocasse em causa o amor e a dedicação que têm pelos que amam.

No consultório, o que observo não aponta para ausência de vínculo, mas para a ausência de espaço interno. Aquele espaço absolutamente necessário para a saúde mental, mas que tantas vezes é ignorado ou desvalorizado. Um espaço que algumas pessoas nem chegam a considerar que deveria existir.

Quando não há possibilidade de parar, de se retirar, de não estar sempre disponível, o psiquismo acaba por procurar formas de aliviar essa pressão, mesmo que isso aconteça apenas ao nível do pensamento. E, ainda assim, aquilo que se pensa também pesa e também assusta. É neste ponto que, muitas vezes, frases como esta aparecem.

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Mas, quando este pensamento começa a ser compreendido desta forma, deixa de ser vivido como uma falha ou falta de amor e passa a ser entendido como um sinal de que algo não está bem.

Ignorá-lo tende apenas a aumentar a pressão.

A dificuldade em desligar, mesmo quando existe tempo para descansar, é um dos sinais de que o desgaste já não é apenas físico, mas psíquico.

Pensar sobre isto não resolve tudo, mas pode ajudar-nos a olhar de outra forma para aquilo que está a acontecer. E, por vezes, é precisamente isso que possibilita começar a fazer diferente.

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