Que me desculpem os meus habituais leitores pelo uso duma palavra de calão no titulo deste artigo, mas usei-o deliberadamente pela força que emana da palavra “pulha”, significando o cume da vontade de alguém em fazer o mal, o pior mal, o maior desejo de fazer sofrer alguém, retirando-lhe a possibilidade de se defender de quem o persegue, retirando lhe qualquer possibilidade de se defender ou de evitar o mal de que alguém o ameaça.
E esta minha incontrolável vontade de me defender e de evitar o sofrimento, tomou conta de mim ao ver na televisão um documentário que me deixou chocado – sentindo correr nas minhas veias todas essas hormonas despertadas pela agressividade duns soldados israelitas atirando, como quem está na caça, a dois ou três maltrapilhos esfomeados que corriam entre as imensas ruínas do que em tempo (não há muito) foram as ruelas onde viviam pacificamente.
Os soldados, irrepreensivelmente fardados e com todos os acessórios próprios dum exército moderno, estavam num alto, com as suas vidas bem seguras e no início dum dificilmente negociado período de paragem das hostilidades, obtida após muitas negociações e concessões mútuas, mediadas por vários países envolventes e desejosos dessa trégua.
Os rapazes sumiram-se entre as imensas ruínas e os soldados olharam um para o outro, sorriram e desapareceram, certamente indo juntar-se tranquilamente ao grupo a que pertenciam. Iam calmos e tranquilos pois era o dia em que se iniciava um período de tréguas duns tantos dias, para se iniciar um período de trocas entre prisioneiros que viviam nos tuneis do grupo chamado terrorista e o enorme número de naturais presos um pouco sem motivos bem definidos
A guerra era tão desproporcionada, e o número de mortes duma das partes era tão gritante que meio mundo se regozijou com a trégua e, especialmente, com a libertação dos prisioneiros, em especial os que estavam retidos e isolados nos tuneis sem que alguém soubesse se estavam vivos ou mortos. Meio mundo vivia com alegria esta trégua e esta troca de prisioneiros – a alegria sentia-se e manifestava-se em muitos e variados países – podia até ser o embrião dessa coisa sagrada que é a paz.
O que pensariam aqueles dois soldados que de manhã tentavam atingir aquelas crianças esfarrapadas e, certamente, cheias de fome?
Os tais soldados, juntamente com o resto do grupo, passaram o primeiro dia da paragem das hostilidades, celebrada praticamente em todo o mundo com um ambiente de alegria, mas, provavelmente, nunca mais se lembraram daquele incidente que, para eles, nada significou.
Para mim, tal incidente e tal ausência de sentimentalidade mereceu este meu arroubo de indignação que me fez usar a palavra “pulhice”, por não ter, de momento, outra que definisse aquela manifestação de insensibilidade. Só me veio à mente este calão algo ordinário. Peço desculpa aos meus leitores.