26 Fevereiro 2024, Segunda-feira
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500 Palavras: A força que as mãos têm

A universalmente conhecida escultura de Rodin intitulada “Catedral” (1908) atrai pelo entrelaçar de duas mãos, que não se tocam, numa forma que convida à aproximação, ao recolhimento, à elevação. A delicadeza que transparece esculpida deixa que o silêncio domine, num crescendo que vai muito além da visão das mãos que quase prolongam o movimento – olhamos esta obra (que, inicialmente, não teve esse título) e associamos-lhe a expressividade que a mão tem em toda a obra de Auguste Rodin (1840-1917). Não terá sido a pensar nesta escultura que João Pina de Morais (1889-1953) escreveu sobre a imagem das mãos (mesmo porque o fez quando estava como combatente na Grande Guerra) no seu diário, em 24 de Abril de 1917, mas a citação poderia constituir legenda para a peça de Rodin: “As mãos são expressivas: como são suplicantes quando se erguem a encaminhar para o céu as palavras que se vão dizendo; como são dolorosas quando cheias de dor se contorcem aflitivas, e mais e mais.” (in “A quem encontrar este livro… – Diário de Guerra 1917-1918”, publicado em 2015).
A mão, símbolo de acção, de poder ou de generosidade, é também objecto de leituras poéticas, por vezes reprimidas pelos poderes instituídos… Quando a censura se deparou, em 1946, com a publicação colectiva “Bloco – Teatro, Poesia, Conto”, não hesitou em proibir a circulação da obra, entre outros motivos por causa do poema “Cântico” (em que o censor apôs um risco vermelho), de Mário Ruivo (1927-2017), um texto contra o trabalho escravo, que proclama: “Nós não temos carabinas / nem bombas nem baionetas // Nós não temos bombardeiros / nem couraçados nem tanks // Nós não temos casamatas / nem jeeps nem cavaleiros // Nós não temos nada disso / Não temos Não // Mas temos as nossas mãos / que semeiam o trigo / e ceifam as searas / e amassam o pão // Nós temos as nossas mãos / que arrancam do subsolo / o ferro e outros metais / que estão nos vossos canhões // Nós temos as nossas mãos / que extraem do seio da terra / todo o petróleo e carvão / que faz mover vossos navios vossos carros celulares // Nós temos as nossas mãos / que constroem as turbinas / e manejam os volantes e as alavancas / dos geradores eléctricos // E as máquinas das fábricas paradas / e a cidade às escuras / e os colectores sem água / e o padeiro sem vir / e o mercado fechado / E tudo com fome E tudo com fome / E A VIDA PARADA // Nós não temos carabinas / Não temos Não // Mas temos as nossas mãos / Mas temos as nossas mãos”.
Igualmente intenso na mensagem, pelo desafio que constitui para o homem pensante, construtor e interventivo, é o poema “As Mãos”, que Manuel Alegre (n. 1936) incluiu no livro “O Canto e as Armas” (1965), título também apreendido pela polícia política do Estado Novo, soneto que assim se inicia: “Com mãos se faz a paz se faz a guerra. / Com mãos tudo se faz e se desfaz. / Com mãos se faz o poema – e são de terra. / Com mãos se faz a guerra – e são a paz.” Depois de mencionar o valor do trabalho e a força transformadora exercida pelo homem, o poema conclui com um terceto apelativo: “De mãos é cada flor cada cidade. / Ninguém pode vencer estas espadas: / nas tuas mãos começa a liberdade.”
Vale ainda lembrar o último romance de José Gardeazabal (n. 1966), “A Mãe e o Crocodilo” (de 2023), obra de questionamento sobre a vida e sobre o mundo, que refere a força das mãos, a propósito de um fenómeno social muito actual: “Os imigrantes imigram com as mãos, é uma maneira de ganhar a vida. Quando não se conhece a língua, ganha-se a vida com as mãos. Depois da língua, a melhor parte do corpo são as duas mãos.”
A expressividade da mão pode definir-nos relativamente aos outros e ao mundo, às crenças e às situações; daí, também, a quantidade de expressões feitas em que a palavra “mão” surge, dando ideia da pluralidade de dimensões que interferem na vida. E os poetas, esses, surpreendem-nos com o uso metafórico que dela fazem, como muito bem o demonstraram, por exemplo, Pedro da Silveira (1922-2003), quando, no “Pequeno poema infinito”, construiu o terceto “A mão sobre o mapa / não viaja, / interroga.” (in “Fui ao mar buscar laranjas”, 2019), ou Sebastião da Gama (1924-1952), que, em “Cabo da Boa Esperança” (1947), confiando na segurança da mão, escreveu “Nem um momento só, / largo das mãos meu leme de certeza”, ou, indo ao encontro do acto de criar, definiu o poeta – “Era nas suas mãos que terminavam / as coisas infinitas e as finitas. / Por isso as suas mãos eram abismos / aonde se perdia o Pensamento.”

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