3 Março 2024, Domingo
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Plágio? Não! (I)

Pela relevância da discussão pública gerada em torno do Memorial a José Afonso, da autoria de Ricardo Crista, inaugurado, em 6 de janeiro, na Praia da Saúde, Manuel Augusto Araújo, que teve responsabilidade na escolha de várias obras de arte públicas instaladas na cidade de Setúbal, entendeu pronunciar-se sobre o tema. O que se segue é a primeira parte de uma adaptação do texto original, aqui publicado com a aprovação e concordância do autor.

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O jornal Público de dia 18 de Janeiro, na secção Local, insere uma extensa notícia intitulada “Memorial José Afonso acusado de plagiar o de Mandela na África do Sul» e o próprio jornal “O Setubalense”, fazendo eco dessa notícia, abordou o assunto no dia seguinte.

Todos conhecemos e experimentámos o efeito de um título na imprensa escrita. Tem o efeito imediato positivo, apontando para um conteúdo assertivo, ou negativo, de estigmatização, no caso a escultura dedicada a José Afonso e do artista que a realizou, acusando-o de plagiar uma outra, mas também de quem a encomendou, por uma suposta negligência de não ter cuidado e aceitar rececionar um plágio. É um texto extenso que recorre a intervenções de Marco Cianfanelli, autor do memorial a Mandela, considerado original, e de Ricardo Crista, autor do memorial a José Afonso, apodado de plágio.

As obras em causa são, de facto, semelhantes, como o são outros memoriais por todo o mundo. Refiram-se os de Atarkurk, Rosa Parks, Jim Green e, em Portugal, o Memorial aos Pescadores de Faro. Todos utilizam a mesma técnica: varas metálicas verticais, recurso a fotografias que, aplicadas a esse sistema, provocam uma ilusão de ótica em que o personagem ou o tema só é legível numa determinada posição. Acessoriamente, os autores argumentam sobre os enquadramentos paisagísticos e as incidências da luz solar e sua rotação, que consideram relevantes para a leitura das obras. São referências indiretas, no caso de Crista até é direta, ao Site Specific e a sua relação com a Arte Pública, teorias que surgiram nos anos setenta e oitenta do século XX para justificar algumas intervenções no espaço público, que têm em Richard Serra o seu mais conhecido escultor.

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São explicações fundadas sobretudo nas teorias de Marta Traquino sobre o Local e o Lugar, com leituras ligeiras e oblíquas. São derivas explicativas que se vulgarizaram nas artes contemporâneas, em que a mais das vezes os textos sobre as obras se sobrepõem às obras, em que se pode detetar a particularidade de serem tão mais inteligentes quanto mais indigentes são as obras, em que a crítica de arte se tornou residual e sem base teórica, dando lugar e espaço a bulas interpretativas.

Essa é uma das questões centrais na arte contemporânea, aceitando a proposta de Nathalie Heinich de a considerar um género, talvez mesmo a mais central, que tem por pano de fundo o mercado das artes, atualmente parte relevante do mercado de objetos de luxo, em que curadores e comissários são personagens centrais, por, como escreveu Pierre Bordieu, serem os “vendedores de necessidades, vendedores de bens e serviços simbólicos que se vendem sempre a si-próprios enquanto modelos, enquanto garantes do valor dos seus produtos”. São quem, de facto, legitima as obras, interfere na normalização e formação do gosto nos processos do mercado, dissociando o valor das obras do valor atribuído aos objetos e às suas condições materiais e sociais de produção.

 

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Texto integral no blogue Praça do Bocage

(continua)

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