8 Dezembro 2022, Quinta-feira
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O Alqueva mudou o Alentejo

Com outubro, deu-se início a um novo ano hidrológico e ficámos a saber que entre 2021 e 2022, caiu dos céus metade da água que seria expectável. A tradicional época de chuva, aliás, é cada vez mais incerta, o que acarreta consequências dramáticas para quem, como os agricultores, depende diretamente dela. É por isso que a forma como gastamos e armazenamos a água se tornou fulcral, chamando a atenção para os bons exemplos, como o Alqueva.

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Sou alentejana e há muito que, sobretudo por razões profissionais, viajo no interior desta enorme região. Nos últimos anos, presenciei com expetativa crescente a mudança radical na paisagem.

Onde antes havia pó, vemos hoje extensos olivais; amendoais e nogueirais a perder de vista; campos de uva de mesa e vinha; hectares de hortícolas.

E vemos gente. Centenas de pessoas que participam no amanho da terra, nas sementeiras, nas plantações, na poda, na colheita… E outras tantas, que colaboram no transporte desses produtos de primeira qualidade, com selo português, para os grandes centros e, daí, para o resto do mundo, criando riqueza a nível local e nacional.

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Toda esta transformação inegável só foi possível graças às águas do Alqueva e ao extenso sistema que faz chegar a vida a 130 mil hectares de regadio, através de mais de 2 mil quilómetros de canais e condutas, pequenas barragens, reservatórios e açudes.

É algo realmente grandioso, com uma área de influência de 10 mil quilómetros quadrados, abrangendo quatro distritos e 21 concelhos, três dos quais – Alcácer do Sal, Grândola e Santiago do Cacém – no nosso distrito de Setúbal.

E a metamorfose não se ficou pela paisagem. A mudança é bem mais profunda e vai ao âmago das gentes destas terras agora beneficiadas pelas águas do maior lago artificial da Europa.

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A água, que foi sempre o maior entrave ao desenvolvimento do Alentejo, porque escasseava – e escasseia ainda, porque esta é uma região onde chove pouco – é hoje, nas áreas que a recebem, o motor para combater a desertificação, o envelhecimento da população e a pobreza.

Para além da forte vertente turística tornada possível, foram implantadas dezenas de explorações agrícolas que criaram milhares de postos de trabalho, empregando população local e cativando novos residentes, portugueses e imigrantes.

Para além da exigência que deve haver ao nível dos pesticidas, da rotatividade dos solos (permitindo a sua recuperação) e da escolha de culturas adequadas, o passo seguinte, que alguns empresários já deram, é o de proporcionar a estas pessoas – nacionais e estrangeiras – as melhores condições possíveis, para que não estejam de passagem, mas se fixem nestes territórios envelhecidos, contribuindo para o seu repovoamento.

É preciso que lhes seja ensinado português, porque melhor se poderão defender e integrar; que lhes sejam oferecidas condições justas de trabalho, para que possam pagar habitações igualmente dignas e queiram trazer as suas famílias; que lhes seja dada formação, para que mais possam contribuir para o desenvolvimento destas terras, das firmas onde trabalham e das suas próprias existências.

Assim como as águas do Alqueva levaram a vida onde antes só havia secura, estas populações podem restituir a vida às aldeias vazias e em ruínas, devolvendo os risos das crianças às escolas fechadas há décadas.

Estas pessoas podem fazer parte do futuro do Alentejo, tal como os muitos que, vindos do Algarve, das Beiras e de outros pontos do País, ali rumaram em meados do século XX, nomeadamente devido ao sistema de rega do Vale do Sado, e se tornaram, também eles, parte integrante desta vasta região.

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