26 Setembro 2022, Segunda-feira
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InícioOpiniãoBispo Manuel Martins partiu há 5 anos

Bispo Manuel Martins partiu há 5 anos

Eram 14 horas, e cinco minutos da tarde, 24 de setembro, dia em que os cristãos comemoram a paixão e a ressurreição de Jesus Cristo, em cada missa que é celebrada desde a tarde de sábado ao entardecer de domingo. Não poderia haver dia mais apropriado para o Bispo Manuel Martins deixar este mundo e entrar no Reino que não se cansou de anunciar. Um Reino onde impera justiça, amor, solidariedade, equidade social, paz; a inveja não existe, bem como lutas por poderes que não sejam o serviço dos outros. Em suma, todos são irmãos. Manuel Martins, sabia-o, pois, o próprio Jesus o tinha dito, que esse Reino não era para ser vivido após a morte, mas mais perto estava dele quem defendesse os valores que o edificavam. Por isso, nunca se calou perante as injustiças; foi em socorro de quem precisou da sua ajuda, mesmo que fosse incomodado  ̶  muitas vezes e  ferozmente o foi, por quem deveria estar  no mesmo lado da barricada  ̶ não se calava; tive muitos sentimentos agridoces ao assistir à sua presença firme para que injustiças não se cometessem e sempre que não o conseguia, pedia-me para ir ao encontro desses injustiçados e providenciasse para que, pelo menos pão na mesa e casa não lhes fosse mais uma dor em cima de uma outra já tão desnecessária. Quantas lágrimas vi, discretamente, correr pelas suas faces. Uma vez disse, ao sair da capela de sua casa: Génio, (era assim que ele me chamava) cada vez, me convenço mais que a cruz de ouro (raras vezes a usou) que me puseram ao pescoço foi sempre para me enganar. Foi um coração que amou até ao fim. Mesmo depois de ter deixado Setúbal, sempre se preocupou com situações que conhecia numa zona do país através dos meios de comunicação social. O coração já não tinha forças anímicas para amar mais e naquele dia, há cinco anos, partiu do nosso convívio, mas não do nosso coração. Seríamos uns ingratos esquecê-lo e não falar dele aos nossos vindouros. Ouvi-lhe muitos suspiros de angústia, mas, talvez por isso, Deus concedeu-me, pela sua bondade, que o seu último suspiro fosse no meu braço direito enquanto o beijava. Para sempre agradecerei esta magnanimidade de Deus.

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Por favor, não se façam comparações entre a forma de uma pessoa exercer uma missão com outras quaisquer, desde que não estejam em causa questões dolosas. Cada um procurará fazer o seu melhor. Os dois Bispos que cá estiveram serviram a Diocese com os dons dados por Deus. Uns adaptaram-se melhor outros nem tanto. Mas isso são questões que entre os próprios se resolvem. Isto para deixar claro que ao relevar a importância do Bispo Manuel Martins não deixo também de evidenciar as qualidades dos seus sucessores.

Passadas pouquíssimas semanas, os representantes dos padres criaram a Fundação D. Manuel Martins. O patrono desta Fundação nunca quis, apesar dos apelos que lhe foram feitos, deixar nada escrito a este propósito. Um grupo de amigos crentes e não crentes já estava a delinear uma Fundação, mas logo que nos foi comunicada a decisão do Conselho Presbiteral, eu próprio entreguei uma folha A4 com as ideias que já estavam traçadas, e garantia que não faria parte de nenhuma, se avançasse a anterior, nem daquela que antes se tinha decidido formar. Mesmo assim, participei em duas reuniões para a elaboração dos Estatutos, sempre informando o Bispo que nunca faria parte da Fundação. O que eu penso de uma “Fundação D. Manuel Martins” foi expresso neste prestigiado jornal. Só Deus sabe, e os membros do Conselho Presbiteral, a pressa em criar uma Fundação que, até hoje, só tem Estatutos aprovados, nada mais feito.

O que importa é não deixar morrer o legado do Bispo Manuel Martins. Com Fundação ou sem ela. Enquanto eu tiver sanidade mental, não esquecerei que as últimas palavras humanas foram para mim: “Força, filho!” e a sua recordação muito bem me tem feito.

Comentários

Eugénio Fonseca
Presidente da Cáritas Portuguesa
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