13 Agosto 2022, Sábado
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Donzela Teodora, entre a beleza e a inteligência (1)

Na cena V do primeiro acto de “Frei Luís de Sousa”, a peça com que Almeida Garrett quis renovar o teatro português (1843), a adolescente Maria discursa sobre o dever de os governantes atenderem aos mais necessitados em tempo de miséria, sendo interrompida pelo tio, Frei Jorge: “A minha donzela Teodora! Assim é, filha; mas o mundo é doutro modo: que lhe havemos de fazer?” Garrett não relata a história de Teodora, mas bem podia contá-la, mesmo que transferindo esse conhecimento para o saber de Jorge; conhecia-a, por certo, ele que era dado aos romances e lendas populares, como sabemos pela publicação de “Adozinda” (1828) e de “Romanceiro” (1843 e 1853).

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Poucos anos antes de ser publicado “Frei Luís de Sousa”, tinha havido uma edição do folheto “História da donzela Teodora em que se trata da sua grande formosura e sabedoria” (1827), obra “traduzida do castelhano em português” por Carlos Ferreira Lisbonense. Antes desta edição, já outras tinham existido, pelo menos nos anos de 1712, 1735, 1741 e 1749, e outras ainda apareceriam na segunda metade do século XIX (conforme registos da Biblioteca Nacional de Portugal).

 

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Começa a história com informação sobre o espaço e a principal personagem: em Tunes, rico mercador da Hungria, visitando o mercado, vê à venda “formosa donzela cristã”, espanhola, não hesitando em comprá-la ao negociante mouro. Acordado o negócio, “mandou-a ensinar a ler e a escrever e aprender todas as artes que pudesse, a qual se inclinou tanto à virtude e estudo que excedeu a todos os homens e mulheres que naquele tempo havia, tanto em Filosofia, com em Música e outras muitas artes.”

Tempos passados, “como todas as coisas neste mundo sejam mudáveis e inconstantes”, o húngaro perdeu a fortuna, disponibilizando-se a donzela para se enfeitar adequadamente a fim de que o mercador a levasse à presença do rei Miramolim Almançor para ser por este comprada por “dez mil dobras de bom ouro vermelho”. O rei, que “estimava muito ver perfeitas e formosas donzelas”, estranhou o valor pedido, argumentando o negociante que a donzela não seria vencida por nenhum sábio em qualquer ciência e acrescentando Teodora que aprendera “as sete artes liberais, a arte de astrologia e as propriedades das pedras, águas e ervas e das qualidades que tem toda a casta de animais e aves que Deus criou no mundo” e que sabia “também cantar música e tocar instrumentos melhor que pessoa alguma.”

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Criado este ambiente na narrativa, fica o leitor com curiosidade quanto ao desfecho e à sorte das personagens. Apesar da auto-confiança da jovem, o rei carecia da prova do saber, pois que a da beleza lhe estava perante os olhos. Foram assim convocados três sábios para testarem Teodora – um especialista em Leis e Mandamentos de Deus; outro, “muito letrado em toda a Ciência, Lógica, Medicina, Cirurgia e também grande Astrólogo e Filósofo e em todas as Artes muito entendido”; o terceiro, “muito sábio em Filosofia, Gramática e em todas as sete Artes Liberais”.

Os dois primeiros, questionando sobre os signos e as suas características, as qualidades do homem e da mulher, a religião e a influência dos signos na medicina, atestaram a superioridade da “muito sábia” Teodora pelas suas respostas prontas e abrangentes.

O terceiro sábio, o judeu Abraão Trovador, considerando os seus antecessores “de pouco saber”, desafiou: “não sou tão simples como os outros sábios que tão vilmente tens vencido”. A provocação foi um bom ponto de partida para a história ganhar um novo impulso e despertar ânimo no leitor, intensificado pela resposta com que Teodora vai comprometer a discussão.

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