2 Outubro 2022, Domingo
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A caminho do Tarrafal

É na edição de 4 deste mês que se escreve, e é verdade: «O SETUBALENSE nasceu em 1855, tendo a sua primeira edição sido publicada no dia 1 de Julho. É, por isso, a marca mais antiga da cidade de Setúbal e o jornal mais antigo do território continental português. Em todo o país, há apenas um jornal mais velho, o ‘Açoriano Oriental’, dos Açores».

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E nós retomamos, sabe-se o que queremos dizer, nestas páginas já escrevemos: «Ora o Setubalense assume-se como “um jornal com muita história”, antes de tudo republicano e tanto que é interdito a 5 de Fevereiro de 1927 pela ditadura salazarista, mas tão igualmente sujeito a mudanças no seu espírito que a 27 de Outubro de 1938 “deixa de trazer no seu cabeçalho a palavra republicano» (o setubalense.pt/história). «Esteve, alternadamente, em várias barricadas… e, quando chegou a altura, também teve os seus momentos de loucura revolucionária.»

Em 1945, e para festejar a vitória dos Aliados, passa a ter como título «Vitória – Setubalense», e a 29 de Outubro, «antes de conhecer uma nova fase» (citamos), denomina-se, simplesmente, «Vitória». É o tempo da derrota do nazi-fascismo, a 9 de Maio, das grandiosas manifestações e concentrações com centenas de milhar de pessoas em Lisboa ou (limitando-nos à Península) em Setúbal, Almada, Cova da Piedade, Barreiro, Moita, Torre da Marinha, Alhos Vedros e Seixal, lá onde, «impedidos pela repressão de arvorar a bandeira da URSS (lado a lado com as nacionais), alguns manifestantes erguem apenas paus nus» (60 Anos de Luta ao Serviço do Povo e da Pátria, Edições Avante!, 1982).

Então, é caso para dizer: há coisas do Diabo! (assunto que já assumimos na imprensa local também, muito recentemente). É que a União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) acaba de editar mais um livro, «Os presos e as prisões políticas em Angra do Heroísmo (1933/1943», apresentado neste fim-de-semana na Casa da Cultura, em Setúbal, que inclui os nomes de 645, entre os quais, a caminho do Tarrafal, onde morreria de biliose, o Secretário-Geral do PCP Bento Gonçalves, aquele que introduziu vários aperfeiçoamentos técnicos no torno do Arsenal do Alfeite com que trabalhava e escreveu «Duas Palavras» em sacos de cimento, no Campo da Morte Lenta. Em Angra, partilhando a prisão com Manuel Rodrigues Oliveira, fundador e proprietário da Editora Cosmos, corporizou o repto a outro Bento, Bento de Jesus Caraça, para lançar, em 1941,  a «Biblioteca Cosmos», no dizer de Manuel Gusmão «a mais importante acção de divulgação científica e cultural do Século XX em Portugal»: 145 títulos, 800 mil exemplares (tiragem média por livro: 6.960 exemplares) debaixo de olho do fascismo, visando «um conjunto de conhecimentos que ao homem-comum, ao homem-da-rua, são indispensáveis para adquirir aquela maneira científica de olhar as coisas sem a qual será sempre deficiente o exercício da cidadania» (Caraça, 1947).

Comentários

Valdemar Santos
Militante do PCP
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