27 Junho 2022, Segunda-feira
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500 Palavras: Aristides de Sousa Mendes biografado por Cláudia Ninhos

“Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível: uns tinham perdido os seus cônjuges, outros não tinham notícias dos filhos extraviados, alguns tinham visto sucumbir pessoas queridas sob os bombardeamentos alemães que todos os dias se renovavam e não poupavam os fugitivos apavorados. (…) Muitos deles eram judeus, que, já perseguidos antes, procuravam angustiosamente escapar ao horror de novas perseguições, por fim um sem-número de mulheres de todos os países invadidos que procuravam evitar ficar à mercê da brutal sensualidade teutónica.” Assim respondeu Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) à nota de culpa resultante do processo disciplinar instaurado em 1940, por ter assinado vistos para cidadãos em fuga da perseguição nazi nos consulados de Bordéus e de Bayona. Mais adiante, afirmava ter-se inspirado “única e exclusivamente nos sentimentos de altruísmo e de generosidade de que os portugueses souberam tantas vezes dar provas eloquentes”. Depois, assumindo ter ultrapassado as ordens recebidas: “Posso ter errado, mas, se errei não o fiz com intenção, tendo procedido sempre segundo os ditames da minha consciência, que nunca deixou de me guiar no cumprimento dos meus deveres.”

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A história do cônsul português que Salazar, na decisão sobre este processo disciplinar, empurrou para “a pena de um ano de inactividade, com direito a metade do vencimento da categoria, devendo de seguida ser aposentado”, vem sumariamente contada na obra “O essencial sobre Aristides de Sousa Mendes” (Imprensa Nacional, 2021, que a disponibiliza gratuitamente na sua página), de Cláudia Ninhos (n. 1985).

O foco deste livro está sobre a carreira diplomática do biografado, percurso relatado a partir das fontes primárias existentes nos arquivos (correspondências e os próprios processos disciplinares em que Sousa Mendes esteve envolvido), seguindo o leitor um trajecto pelos tempos de estudo em Coimbra, ingresso no Ministério dos Negócios Estrangeiros, exercício de funções na Guiana Britânica (1910), na Galiza (1911 e 1927), em Zanzibar (1911), em Curitiba (1918), em Berlim (1921), em São Francisco (1921), em Maranhão e Porto Alegre (1924), em Antuérpia (1929), em Bordéus (1938), detendo-se a biografia no último processo disciplinar que lhe foi instaurado e na vida de sofrimento e tentativa de regeneração do cônsul.

O que fica da história é a luta entre a política cega, a consciência e a ética, com a burocracia das circulares a interferir num processo a que não são alheias a polícia política e muita hipocrisia. Aristides de Sousa Mendes sempre invocou razões humanitárias para a sua decisão na assinatura dos vistos de Bordéus, aspecto nunca considerado. Contudo, Salazar, logo que finda a guerra, dizia, na Assembleia Nacional: “Quaisquer outros na nossa situação acolheriam refugiados, salvariam e agasalhariam náufragos, ajudariam a suavizar a sorte dos prisioneiros, por dever de solidariedade humana e para manter (…) a justiça e a paz. Pena foi não termos podido fazer mais.”

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A lenta reabilitação de Sousa Mendes cabe também nesta história, pois apenas em 1988 a Assembleia da República decidiu em conformidade. Ainda hoje, diz Cláudia Ninhos, a memória surge divivida entre “o herói que se transformou em figura de culto e o cônsul que desobedeceu e cujo papel no salvamento de refugiados é objecto de branqueamento por alguns autores, curiosamente, diplomatas como ele.”

Lembrando a data em que, em Bordéus, Sousa Mendes decidiu assinar, em nome da sua formação, vistos para todos os refugiados (resumindo o livro a história de uma família, a do polaco Stefan Rozenfeld, a título de exemplo), o Papa Francisco instituiu, em 2020, o 17 de Junho como o “Dia da Consciência”, assim lembrando uma figura inspiradora em prol da dignidade humana.

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