21 Maio 2022, Sábado
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Roemos demais a rolha do rei

Acompanho com grande preocupação as relações russo-ucranianas há anos e é com ainda maior pesar, mas sem surpresa, que testemunho a maior acção militar na Europa desde a 2ª Guerra Mundial.

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O que assistimos está longe de ser um episódio pontual, trata-se de um vulcão que há muito esperava pela sua erupção. É inegável que a Ucrânia tenha profundos laços socioculturais com a Rússia, dada a história de ambos, e até há relativamente pouco tempo estes países coexistiram em relativa paz, em cooperação até.

Tudo isto muda quando a voz do povo ucraniano falou mais alto em 2014 e a Euromaidan leva à queda do presidente Yanukóvytch, notoriamente pró-Rússia. Curiosamente, ou não, esta data coincide com a invasão e anexação da Crimeia por parte da Rússia.

Já na altura a resposta da NATO, da comunidade internacional em geral, deixou muito a desejar, alimentando este sentimento de impunidade que leva às acções que hoje testemunhamos.

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Com os pseudo-acordos de paz de Minsk 2014-15 (falhanços diplomáticos da França e da Alemanha), levantou-se a questão separatista que hoje em dia tanto falamos. Há oito anos que a Ucrânia se depara com os separatistas das regiões de Donetsk e Luhansk, cujo reconhecimento russo já havia sido preparado com a distribuição de centenas de milhares de passaportes pelos rebeldes – facilitando a justificação de uma intervenção militar com a defesa dos seus cidadãos.

Há que entender a situação, uma vez que grande parte dos media tem optado por uma visão sensacionalista dos factos, ao invés da necessária pedagogia que este conflito exige.

O que fez a Rússia invadir a Ucrânia? Desde a queda de Yanukóvytch que Putin teme, com razão, uma aproximação da Ucrânia às instituições europeias, mais concretamente à União Europeia e à NATO.

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Putin é intransigente nas suas exigências de uma Ucrânia desmilitarizada, neutra, e legalmente afastada da NATO, por ver nessa aproximação um problema de segurança nacional. Ou seja, este conflito vai para além da Ucrânia, prende-se com um suposto avanço da NATO.

Putin agarra-se à suposta ideia de que a NATO, mais precisamente os EUA, não cumpriu a promessa de não expansão para o leste, argumentando com as adesões à NATO de 1997 para a frente (por conveniência, eis as adesões: Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Roménia, Eslovénia, Croácia, Montenegro, Albânia, Macedónia do Norte, Bulgária).

Olhando para o mapa, o comum dos mortais poderá inclinar-se a favor deste argumento de Putin, o problema é que esta suposta promessa foi feita a Gorbachev em 1990 e era relativa à Alemanha Oriental, no contexto de uma Alemanha reunificada, não estando directamente ligado aos planos de expansão da NATO.

No fundo, muitas opiniões podem surgir deste conflito, sendo que várias causas serão lançadas ao ar. Mas a meu ver e com base no historial argumentativo de Putin, a necessidade de contrapor a expansão da NATO e possível adesão da Ucrânia à mesma (apesar das declarações de Olaf Scholz contra esta ideia) ou à UE pesa mais do que, por exemplo, as riquezas naturais (que são abundantes) deste país.

O que se pode fazer pela Ucrânia? Não havendo sequer comparação entre o poderio militar destes países, também já sabemos que a NATO não pretende enviar tropas directamente para a Ucrânia, preferindo apoiar de outras formas – apoio logístico, armamento, etc.

Para além do reforço das fronteiras dos membros da NATO na região com uns escassos milhares de soldados, sabemos que o Reino Unido, os Estados Unidos e a UE aprovaram várias sanções visando empresas e indivíduos directamente ligados ao aparelho militar russo, sendo que muitas destas, no caso do pacote europeu, relembram o aplicado aquando a anexação ilegal da Crimeia, pelo que cada um poderá aferir a sua eficiência com base nisso.

Muito badalado foi também a “grande” decisão da Alemanha em suspender a aprovação do gasoduto (ou pipeline para ser fixe) Nord Stream 2; esta seria, de facto, impactante, não fosse o acordo fechado com a China no início deste mês, a propósito do contrato de fornecimento de gás russo por 30 anos, culminando, claro está, num novo gasoduto entre os dois países.

Não menosprezando as valências comprovadas da guerra económica, penso que todos esperarão muito mais para dominar Putin. Pois bem, nesta linha de pensamento, a medida mais pesada que a comunidade internacional poderia impor seria a desconexão total do sistema bancário Russo do SWIFT, o sistema internacional de pagamentos.

O problema é que isto teria graves repercussões na economia mundial, tanto nos EUA, como na Europa, pelo que dificilmente será equacionado. A maior questão que se coloca é se algum de nós, ou, melhor dizendo, algum país democrático, está disposto à possibilidade de uma nova guerra mundial.

E se não estiverem, conseguiremos dormir descansados à noite, não só com o peso na consciência por falhar ao povo ucraniano, mas com a noção de que, a qualquer momento, Putin poderá lembrar-se que somos nós a seguir?

PS: À data da redacção, ainda não havia sido tomada a boa decisão sobre a desconexão da Rússia do SWIFT. Como digo, é a medida mais gravosa em ambiente de guerra económica, e certamente acarretará consequências para a economia mundial, um preço que estaremos mais que dispostos a pagar.

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