14 Abril 2024, Domingo
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500 palavras: Como Jorge Ginja levou Mário Viegas e a poesia para a guerra

Em finais de 1968, o vila-realense Jorge Ginja (1940-2020) e o escalabitano Mário Viegas (1948-1996) conheceram-se no Teatro Universitário do Porto. A ligação comum ao teatro e à poesia foi responsável por um gesto que se manteve guardado durante meio século. No ano seguinte, o médico transmontano foi convocado para o serviço militar, com partida para Cabinda (Angola) no início de 1970 como oficial médico. Provavelmente, terá levado livros consigo, mas o que de certeza transportou foi quase meia centena de textos ditos pela voz de Mário Viegas, encadernados em bobine, além do respectivo aparelho leitor, claro.

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Foi em 1969 que Jorge Ginja pediu ao amigo que gravasse esse conjunto – 47 poemas e 2 textos dramáticos – para os levar consigo para o cenário da guerra colonial. Em 2021, Catarina Ginja e Pedro Ginja decidiram partilhar essa memória, reunindo em livro os textos gravados e passando para cd os sons das fitas, num trabalho em que esteve também envolvida a livraria portuense In-Libris, editora da obra, assim nascendo “Voz Própria – Jorge Ginja e Mário Viegas – Poesia, Resistência e Liberdade”.

Em nota introdutória ao livro, Manuela Jorge refere que a selecção dos textos coube a Jorge Ginja – “Recordo-me muito bem de me ter dito que ia marcar poemas nos seus livros e levar o Mário Viegas a casa da mãe, para gravarem os poemas que queria levar para a guerra.” No prefácio que assina, Manuel Alegre admite como “possível que Mário Viegas tenha sugerido alguns textos”. Temos assim uma antologia lida e dita, construída por dois nomes que partilhavam o gosto da representação e da poesia, mas também das ideias.

Entre os poetas representados, constam: Gastão Cruz, Guerra Junqueiro, José Gomes Ferreira e Sebastião da Gama (todos com um poema); António Gedeão, Armindo Rodrigues, Joaquim Namorado, Pablo Neruda e Vinicius de Moraes (dois poemas); Bertolt Brecht (quatro poemas); Ary dos Santos e Manuel Alegre (sete poemas); Alexandre O’Neill (quinze poemas). Os textos dramáticos devem-se a Máximo Gorki (excerto da peça “Pequenos Burgueses”) e a Anton Tchékhov (“Os malefícios do tabaco”).

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Em tão vasto leque, consegue o leitor-ouvinte encontrar pontos fortes como: a força da palavra; o encorajamento e o incentivo à acção; a denúncia da guerra e da prisão; a ironia; o triângulo da emigração, do exílio e do longe; a ausência; a liberdade; a partilha e a busca da paz. E percebe-se o que seria a proximidade de ideias entre os dois amigos que recriaram a poesia, como se entende o subtítulo escolhido para o livro: desde a liberdade cantada por Armindo Rodrigues (“Ser livre é querer ter um rumo / e ir sem medo”), à memória de Manuel Alegre no dia de aniversário na prisão em Maio de 1963, à indignação do soldado por uma guerra que não dava sinais de paz nas palavras de Brecht, à ironia de Ary na descrição de um “país de luz” e de “pus”, para concluir no manifesto da personagem tchekhoviana – “Só apetece fugir não se sabe para onde” e deixar “esta vida estúpida e banal, esta vida medíocre, que fez de mim um deplorável pateta”.

A recolha dos textos, em obras publicadas entre 1885 e 1969, segue o critério dessa afirmação dos dois amigos. E, na voz de Viegas, então com 20 anos, percebemos já o fulgor do artista que era. Este livro é de antologia! Pela beleza do objecto, claro. Mas sobretudo pela poesia, pelo pensamento, pela arte, pela memória, pela história que o criou!

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