5 Dezembro 2021, Domingo
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Ao nosso Lado

É cedo ainda quando peço ao balcão a meia de leite habitual. Há uma mulher que todos os dias entra sempre apressada, pede um café e um pão com fiambre e manteiga para levar. É jovem ainda, mas nos olhos traz sempre medo. Mesmo no café olha para todos os lados antes de entrar ou sair. Desabafou um dia com a empregada, que o ex-marido a persegue por todo o lado desde que se separaram. Andou quase três anos escondida em casa de familiares. Ele ameaça-a de morte se não voltar para ele.
Chego depois à sala de aula e mesmo antes de começar uma aluna pede para falar comigo. Hoje uma colega não viria. Estava em choque, tinha ficado em casa. Ao chegar à estação de comboio para regressar a casa depois das aulas, foi abordada por três rapazes da sua idade que a tentaram sufocar com o lenço que trazia ao pescoço e a empurraram para uma casa de banho onde tentaram violá-la. Não fosse um senhor ter percebido e ter chamado a segurança a tempo, teria sido impossível para ela defender-se. Agora nem queria ouvir falar em sair de casa.
Quando vou almoçar, a senhora que me serve tem novamente o braço ao peito. Já a vi várias vezes magoada, umas vezes são nódoas negras no rosto, olhos pisados, braços ao peito, pernas a coxear…de todas as vezes a mesma desculpa, escorregou. É uma “mulher desastrada” como o marido tantas vezes lhe diz.
À tarde no dentista, enquanto aguardo a consulta, oiço a senhora que ficou viúva há um ano a desabafar. O marido era muito ciumento, nunca a deixou ir a lado nenhum sem ele. Nunca lhe permitiu trabalhar fora de casa, nem falar com a família ou amigos, sem estar presente. Controlava todo o dinheiro que lhe dava. Nunca foi feliz, diz, mas não tinha tido forma nem apoio para o deixar. Agora que ele morreu, era um alívio, só tinha pena de não ter menos 20 anos para aproveitar melhor a vida.
Todos os dias a violência contra as mulheres tem rostos que passam ao nosso lado, comem na mesma mesa, entram na mesma loja, vão buscar os filhos à mesma escola…
Muitas vezes estas mulheres não sabem a quem recorrer para pedir apoio e, outras vezes, já tentaram e perceberam que o apoio é difícil de obter ou vem demasiado tarde. E por isso calam-se por medo. Esperam que melhore, mas só piora.
Infelizmente continuamos a viver, lado a lado, todos os dias com situações de violência silenciada pelas mulheres. E tanto ainda há a fazer em proximidade nos nossos concelhos, como linhas de emergência 24h de rápida atuação na violência contra as mulheres, na rápida retirada de vítimas em perigo para casas abrigo ou casas protegidas, no suporte económico a mulheres que saem de casa sem as mais básicas necessidades garantidas, no apoio estruturado passo a passo nas denúncias, no apoio judicial rápido e acessível, sem muitos procedimentos burocráticos, para quem tem poucos meios para pagar. Na promoção local de emprego protegido para mulheres que têm de recomeçar as suas vidas nestes contextos. No apoio psicológico duradouro para as vítimas. Na penalização real e efetiva dos agressores e no seu acompanhamento continuado.
O dia 25 de Novembro, Dia Mundial para Eliminação da Violência Contra as Mulheres, não tem de ser uma data a marcar por gerações sem fim de mulheres.

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