22 Setembro 2021, Quarta-feira
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500 palavras: Carlos Rates, o “incorrigível” de Setúbal

Quase a fazer 24 anos (seria dali a cerca de três semanas), um despacho do Major-General da Armada, de 26 de Janeiro de 1903, considerou-o “incorrigível, devendo ser transferido como soldado para o exército do ultramar”, consequência da sua segunda deserção da Marinha. Uma década depois, em 18 de Dezembro de 1913, por ter realizado uma conferência na Terrugem sem autorização do Governo Civil e resistido ao regedor local, dizia-lhe o juiz, no Tribunal de Elvas: “Eu tenho de aconselhá-lo a mudar de vida. (…) A verdade é que o senhor tem de arrepiar caminho, pois que assim prepara para si a vida do cárcere.” O homem em causa era o setubalense Carlos Rates (1879-1961), biografado por Pedro Prostes da Fonseca na obra “Incorrigível – A história desconhecida de Carlos Rates” (Ponto de Fuga, 2021).

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A surpresa sobre a personalidade desta história é logo acentuada no subtítulo – “De primeiro Secretário-Geral do PCP a apoiante de Salazar” -, assim como no início do prefácio assinado por Fernando Rosas, que diz estarmos perante “o percurso político, social e até de vida privada do mais emblemático dos trânsfugas da história do movimento operário português no primeiro quartel do século XX”.

Em duzentas páginas, acompanhamos o trajecto de Rates: ardina, operário conserveiro, marinheiro, sindicalista, jornalista, autor de peças de teatro, de romances e de ensaios sobre política (defendendo a ditadura do proletariado), co-fundador e primeiro Secretário-Geral do Partido Comunista Português, apaixonado por duas irmãs, colaborador do governo sidonista e da União Nacional, preso várias vezes e deportado, conhecedor do país pela causa sindical, expulso do partido que ajudou a criar (por colaborar com a “imprensa burguesa”), personagem de um romance autobiográfico escrito pela filha, até falecer esquecido, nem sendo motivo de notícia nos vários jornais em que participou.

A intervenção pública e política de Carlos Rates é acompanhada de perto por Prostes da Fonseca, de muito valendo os artigos que o biografado foi publicando nos vários jornais como “O Germinal”, “A Batalha”, “Bandeira Vermelha”, “O Sindicalista”, “O Século”, “A Pátria”, “O Intransigente”, “O Comunista” ou o funchalense “O Jornal”. Simultaneamente, revê-se a história do movimento operário e da política portuguesa, sua inconstância e clivagem – bastará pensar-se em toda a intervenção operária no final da monarquia ou no afastamento entre o operariado e o regime republicano (ambos os momentos com incidência fortemente sentida em Setúbal) ou na permanente falta de consensos governativos (até Dezembro de 1925, foram 46 os governos republicanos).

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Descontente com os partidos, que responsabiliza pela crise geral vivida, Carlos Rates escreverá para o jornal “Diário da Manhã”, em Julho de 1931, solicitando filiação na União Nacional, embora com algum pendor crítico e defendendo que “a ditadura não deve ceder o campo sem lançar as bases de uma democracia estável”. Sonhava Rates com a transitoriedade da ditadura, que prepararia o terreno para a vivência democrática…

A vida de Carlos Rates a partir da década de 1930 surge sob o signo do desencanto, refugiando-se na família (vivendo com a filha Celeste e regularizando a sua situação com Aura, após o falecimento de Maria Emília, mãe de Celeste) e na escrita. As últimas três décadas da sua vida são apresentadas a partir do romance autobiográfico “Grades Vivas”, escrito pela filha, Celeste da Conceição (1954).

A vida do “Incorrigível” preenche os caminhos da contradição, tal como se refere no fecho do livro: um percurso “complexo, contraditório, tão perdido entre as luzes e sombras dos seus labirintos interiores como entre as que iluminam ou obscurecem o grande palco da história.”

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