4 Agosto 2021, Quarta-feira
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Assim não vamos lá

De tempos a tempos, em intervalos cada vez mais curtos, o planeta faz questão de nos lembrar de que estamos à beira do caos climático. Esses alertas nunca vêm em modo suave – desta vez mataram 168 pessoas, vítimas de inundações sem precedentes na Bélgica e na Alemanha; no Canadá, as temperaturas atingiram 50 graus e provocaram uma onda de incêndios e até de mortes súbitas nas regiões mais quentes – porque é que tão difícil escutá-los?

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Será a humanidade capaz de se emancipar da sua própria destruição? A geração da greve climática lançou uma pergunta que permanece sem resposta mas que engrossou o campo do progresso. A contradição entre capital e natureza é mais profunda do que o alívio moral de que goza a classe alta ao volante do seu Tesla.

O desafio é pensar numa estratégia que não passe pela criação de novos mercados onde se transacionam valores ambientais – como emissões de carbono ou até água -, ou que não nos diga que a culpa da seca é nossa – e só nossa – porque não lavamos os dentes com escova de bambu. A imaginação do capitalismo verde será inesgotável mas não garante resposta para combater as alterações climáticas e não desistirá de tentar passar para os debaixo, o custo da transição energética e industrial – paga em desemprego e aumento do custo de vida.

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Não há caminho se não se mobilizarem os recursos públicos e as transformações do sistema económico para essa evidência. Um dos exemplos mais claros é o da mobilidade. Pensemos no caso da margem sul, que todos os dias exporta centenas de milhar de carros para a margem norte para fornecer mão de obra à capital. Ou na dificuldade, para não dizer absoluta impossibilidade, de percorrer o distrito de comboio. 

Ao longo dos anos, o distrito de Setúbal tem vindo a sofrer sucessivas supressões do serviço de transporte ferroviário, deixando uma série de localidades a sul do distrito de Setúbal e no litoral alentejano sem qualquer alternativa de mobilidade.

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Em 2011, foi suprimido o serviço regional na ligação entre Setúbal e Tunes e alterado o percurso e locais de paragem do serviço Intercidades Lisboa-Faro. Estas decisões, tomadas à margem dos interesses das populações, são o espelho do desrespeito pela preservação e valorização da ferrovia como elemento essencial para o desenvolvimento económico e social do país. Para além de ser uma alternativa ao paradigma presente do uso do transporte individual, contribuindo para a redução de custos para as populações e das emissões de carbono, a aposta no transporte coletivo continua a ser condição fundamental para propiciar uma maior mobilidade, coesão territorial e desenvolvimento económico.

Também a decisão de supressão das paragens do serviço Intercidades em Setúbal e Alcácer do Sal tem como consequências evidentes o aumento do tempo total das deslocações, o incremento do seu custo para os utentes, a que acresce a transferência de uma parte dos passageiros para as empresas de transporte rodoviário privadas, bem como para o transporte individual. Não é assim que vamos lá.

O investimento na ferrovia é um dos desígnios mais importantes para o país, seja pelos ganhos ambientais claros, seja pelas vantagens para a saúde pública e qualidade de vida das populações. Por isso, é urgente reforçar o investimento na ferrovia em todo o país, dando prioridade aos locais que mais dificuldades apresentam atualmente, por forma a responder efetivamente aos problemas de coesão territorial e desertificação do interior.

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