11 Maio 2021, Terça-feira
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500 palavras: Francisco Vaz e um auto da Paixão

O realizador Manoel de Oliveira sonhava-o desde 1958, quando, num périplo transmontano, viu, em Curalha (Chaves), a representação popular de uma antiga peça religiosa sobre a morte e paixão de Cristo. Em 1962, meteu mãos à obra, levando para o cinema os actores curalhenses no filme “Acto da Primavera”, estreado no ano seguinte em Paris e em Lisboa, numa actualização da história relatada no auto.

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O texto desta narrativa rodada em Curalha existe desde o século XVI sob o título “Obra novamente feita da muito dolorosa morte e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo conforme a escreveram os quatro santos evangelistas” e é devido ao padre Francisco Vaz, de Guimarães. Pormenores biográficos sobre o autor são desconhecidos, mas sempre se sabe que a peça teve primeira impressão em 1593 e sucessivas reimpressões até finais de Oitocentos. Em 1995, o Instituto de Estudos Teatrais Jorge de Faria, da Universidade de Coimbra, editou o fac-símile da reimpressão de 1659, a quarta que terá sido feita, que, nas suas quarenta páginas, contempla trinta pequenas gravuras alusivas aos passos da paixão de Cristo. Os versos dos diálogos oscilam no esquema rimático e na métrica (maioritariamente em redondilha maior), numa linguagem acessível, ainda que, por vezes, recorrendo a alterações anastróficas por sacrifício imposto pela rima.

O auto envolve acima de quarenta personagens, representando toda a movimentação que rodeou a vida de Cristo entre a Última Ceia e o momento da descida da cruz e entrada no Santo Sepulcro. Assim, o leitor (ou o espectador) vê passar figuras como Acusador, Anás, Ancila, Anjo, Apóstolos (doze), Caifás, Centúrio, Cristo, Diabo, Espia, Fariseus, Herodes, Hóspede, Jacob Baru, José de Arimateia, Judas, Ladrões (dois), Longino, Malco, Nicodemos, Nossa Senhora, Pajem, Pilatos, Porteiro, Pregão, Rabi Abraão, Rabi Azar, Romão, Testemunhas (duas) e Verónica, além do Representador, que surge numa longa primeira cena para apresentar a obra (prometendo que será representado “tudo em suma como aconteceu”), assinalando a importância da fonte que os evangelhos constituem, tentando despertar as simpatias e as oposições do público relativamente a personagens que por ali desfilarão e preparando a assistência para momentos de comoção.

A maioria das personagens advém dos relatos bíblicos, mas há várias que resultam da imaginação do autor ou dos evangelhos apócrifos, o mesmo acontecendo com as cenas representadas, que têm também a intenção de levar à comoção – particularmente intenso é o momento em que Cristo vai despedir-se da mãe, antes do sacrifício por que vai passar, terminando esse encontro com Nossa Senhora a abraçar o filho e a dizer aos Apóstolos “Também vos quero abraçar, / filhos meus, com muito amor, / e a todos vós rogar / não queirais desamparar / a vosso Mestre e Senhor.” Não menos emotivo é o momento de pranto partilhado entre Verónica e Nossa Senhora quando ambas se encontram e a mãe vê o rosto do filho estampado na toalha que lhe é mostrada.

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O tema da paixão de Cristo motivou fortemente o teatro de carácter religioso desde a Idade Média, numa linha de intensidade dramática que dominava actores e espectadores. Antero de Figueiredo, na obra “Jornadas em Portugal”, de 1918, noticia ter visto uma representação deste auto de Francisco Vaz na aldeia de Duas Igrejas e ter sabido de um homem doente havia quinze dias “com os açoites e as vergastadas que lhe deram na representação da Paixão do Senhor, em que ele fez de Jesus”, papel desempenhado “por penitência”. O texto quinhentista assumia assim o seu carácter catequético e eternizava a mensagem salvadora da Paixão de Cristo.

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