16 Maio 2022, Segunda-feira
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Vamos lá acabar com a “Parvoíce”

Tenho acompanhado uma “polémica” instalada por causa de um comunicado do executivo da edilidade setubalense para demonstrar a sua indignação por uma reportagem feita pela TVI sobre a situação de algumas famílias a viverem, inumanamente, numa parte da designada Quinta da Parvoíce. Penso que o teor do comunicado poderia ter sido mais substantivo e menos adjetivo. Deveria ter colocado mais o enfoque no problema e não tanto numa pessoa que age em conformidade com a opção de vida que fez. Assim como me parece que o comunicado deveria utilizar a reportagem para apontar mais a falta de colaboração do poder central, mais propriamente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana que tarda em ajudar as autoridades locais a resolverem tão incómoda realidade. Não me refiro apenas aos governantes atuais, pois este assunto, como diz o povo, “já tem barbas”.

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O comunicado teria incomodado parte do clero setubalense, por o mesmo se referir ao comportamento menos próprio, segundo a opinião de quem o redigiu, de “algum clero”. Os responsáveis pelo édito deveriam ter dito a quem se referiam, mas se o fizessem ignorariam a defesa pública que o bispo sadino tem feito da necessidade de se encontrar uma saída digna, juntamente com a sua Cáritas Diocesana, para melhorar as condições de vida da gente que habita naquele tugúrio. É que o Bispo também pertence ao clero.

Em tempos idos, também eu andei por lá e conheci bem aquela realidade. Conheci histórias de vida que só, com compaixão, se compreendem. Por vezes, oiço comentários que revelam total desconhecimento das razões que levam as pessoas a habitarem naquelas condições. A opção é a rua ou construir barracos para se defenderem das inclemências naturais. É gente trabalhadora, mas cujos salários nem sempre chegam para arrendarem uma casa.

Não posso dizer que haja falta de vontade da Câmara Municipal em resolver esta situação e a de outra muita gente que necessita de uma casa digna. Mas, também, seria incoerente que a Igreja Católica (refiro-me a ela, porque a ela pertenço e como tal, se nada fizer, também serei corresponsável pelas suas omissões) deixasse aquela desgraçada gente à sua sorte. Ser cristão é seguir a Jesus e, por isso, não podemos esquecer que Ele disse: «Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10). A este propósito, lembro que, no próximo domingo, por iniciativa do Papa Francisco, se assinala o Dia Mundial dos Pobres. Para este ano, ele escolheu um lema muito exigente, citando o Livro de Ben Sirá, que pede: Estende a tua mão ao pobre (Sir 7,32).

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A habitação, a seguir à falta de trabalho, é um dos problemas mais graves do nosso país. Ter uma habitação digna é um dos mais elementares direitos humanos. Tanta casa devoluta e até a degradar-se e tanto terreno ainda disponível. Só conjugando vontades se conseguirá forçar o apoio indispensável do poder central, concretamente, do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU). Foi, assim, que se conseguiu, há 5 anos, resolver problema igual como o que afetava as 55 famílias instaladas na ex-fábrica da Mecânica Setubalense. Para esta situação o IHRU tem que disponibilizar terrenos. De “costas voltadas” nada se resolve. Por isso, também me dirijo, a quem de direito, para que não privem de água e de eletricidade as famílias em causa. Bem sabem que elas até pagariam o que gastam, mas legalmente não há condições de fornecer estes dois bens imprescindíveis. Para esta situação só há uma forma legal que é a solidariedade. Que todas as forças vivas de Setúbal se unam para que a nenhum setubalense seja negado o direito a uma habitação digna.

Para já, é urgente acabar com a “parvoíce” instalada na Quinta da Parvoíce. Vamos lá unir-nos, pois só assim seremos mais fortes e dignos dos compromissos assumidos.

Comentários

Eugénio Fonseca
Presidente da Cáritas Portuguesa
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