27 Janeiro 2022, Quinta-feira
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Desacertos que vêm por bem

A 4 de Outubro passado, em Loures, João Ferreira, comunista candidato à Presidência da República, assinalava o 110º Aniversário da Revolução Repúblicana. “A partir da História,… nesta data de há 110 anos (aqui) desacertada da generalidade do calendário revolucionário… olhamos para actualidade e o futuro do nosso País…”, disse.

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Efectivamente, para além de Loures, cinco foram os municípios portugueses que logo a 4 daquele mês proclamaram a República, todos na borda a sul do Tejo, na Península de Setúbal: Almada, Barreiro, Moita, Montijo e Seixal. Ou seja – no dia em que começaram as operações militares, com o assalto ao Regimento de Infantaria 16, em Campo de Ourique, graças ao qual a adesão de praças, sargentos e oficiais de baixa patente ao movimento republicano viria a ter novo e determinante sucesso com a tomada do Quartel de Artilharia 1, em Lisboa.

Já o Congresso Republicano realizado na capital sadina a 23 e 24 de Abril de 1908 declarara a via insurreccional como único meio de derrubar o regime monárquico – como que a predestinar que também no 4 de Outubro, na mesma cidade, a grande agitação popular conduzisse ao incêndio do edifício da Câmara!

Conhece-se um registo de 63 greves entre o 5 de Outubro e o final de 1910, muitas das quis com forte incidência na Margem Sul. Não há melhor explicação do que a de Bento Gonçalves, Secretário-Geral do PCP, nas Palavras Necessárias que escreveu antes de falecer em 1942 de biliose, no Tarrafal: “a principal dificuldade da grande burguesia consistia em ter a sua classe dividida ideologicamente: dum lado os republicanos, do outro os monárquicos.” O que explica que, tal como referia o Avante! de 4 de Março de 1910 relatando a sessão que, a 27 de Fevereiro, em Almada, abriu o ciclo de iniciativas regionais do PCP sobre “A Revolução Republicana de 1910 na História da Luta do Povo Português”, o 5 de Outubro “limpou o espaço para a burguesia e as massas populares com o operariado na vanguarda se confrontarem num frente a frente directo, a luta de classes, que cedo levou a morte aos trabalhadores.” E não deixou de haver a “Canção de um pé descalço anónimo”, sobre a batalha da Rotunda: “Meu coração abrasava De amor pela Democracia Odiando a monarquia Que tanto mal nos causava A hora de luta esperava Quando o peito se m’inunda De uma alegria profunda Ao ouvir dar o sinal Desde o começo ao final Bati-me lá na Rotunda Do Povo o sangue correu Assim como o dos soldados Os chefes, esses, coitados Nenhum deles apareceu Quando o inimigo cedeu É que ao povo se mostraram Foi então que proclamaram Essa coisa da “República” E ante a opinião pública Herói eles me chamaram”.

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O assassinato pela Guarda Republicana de dois operários conserveiros, uma mulher e um homem, em greve em Setúbal a 13 de Março de 1911 cedo ilustrou outra parte do poema: “Com os doutores eu estava, mas sem ilusões ficava / pouco tempo decorrido.” Foi na Festa do Avante! dos Cem Anos que o Grupo de Teatro Amador da Palhavã, de Setúbal, conheceu porventura uma das maiores plateias na apresentação da peça “Por Dez Reis”, inspirada naquele crime das forças militares ao serviço da classe triunfadora. Mas o sentido progressista na História de Portugal que representou a Revolução Republicana em termos de mudança de regime não podia deixar de fazer do 5 de Outubro bandeira em importantes jornadas de unidade e luta antifascistas, só suplantadas no 1º de Maio de 1962, assinalando a inequívoca afirmação da classe operária, no plano social, e do PCP, no plano político, como forças determinantes da luta pelo derrubamento do fascismo.

A História não se repete, mas algo faz lembrar que “a revolução de Abril foi uma revolução inacabada. Apesar das suas aquisições históricas, muitas das suas principais conquistas foram destruídas. Outras, embora enfraquecidas e ameaçadas, continuam presentes na vida nacional. Todas são referências e valores essenciais no presente e no futuro democrático e independente de Portugal” (Programa do PCP).

 

Comentários

Valdemar Santos
Militante do PCP
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