3 Março 2024, Domingo
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A Pandemia De Que Ninguém Parecia Estar à Espera

Os países asiáticos, e em especial a China, onde a pandemia começou, parecem estar a obter mais êxito na sua contenção e mitigação, o que tem originado um olhar atento às eventuais causas desse fenómeno. Um observador privilegiado, porque nasceu na Coreia do Sul e veio com 20 anos para a Europa (Alemanha) onde fez toda a sua formação superior (é Professor Universitário em Berlim) é Byung-Chull Han, o conceituado filósofo, autor do célebre ensaio a Sociedade do Cansaço.

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O autor referia aí que “apesar do medo descomunal de uma pandemia gripal” não vivemos presentemente na época viral. A sua análise revelou-se premonitória mas, infelizmente, infundada: o novo coronavírus aí está para o desmentir. Mas não é altura de elucubrações teóricas num momento em que todos somos chamados a controlar uma epidemia em transmissão acelerada. É, sobretudo o momento de agir. Por isso, as palavras de Byung-Chull Han publicadas há três semanas e meia em alguns jornais de referência, são as de um observador privilegiado com um conhecimento profundo tanto da Ásia como da Europa.

Resulta dessa análise que os países da Europa (a que podemos acrescentar os EUA), apesar de ter tido um tempo suplementar, não soube adoptar as melhores práticas no combate à pandemia. O drama que vem assolando a Espanha, a Itália (agora também os Estados Unidos), levanta questões que se reportam a diferenças culturais fundamentais: em particular as que se prendem com a definição da esfera privada, cá e lá: na Ásia, tanto na China, Hong Kong, Taiwan, Singapura é assunto de escassa relevância; mesmo no Japão e Coreia do Sul, é comum “uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (o confucionismo)”.

Foi assim, com naturalidade, que nestas sociedades que vivem a era digital de forma avassaladora, que se deu o recurso a uma severa vigilância digital: pode afirmar-se que na Ásia o combate à epidemia engloba agora para além dos tradicionais actores do combate sanitário, juntam-se os informáticos e especialistas em Big Data (macro dados). Isto corresponde a uma mudança de paradigma e, afirma Byung, a Europa não se apercebeu desta mudança, o que poderia ter salvo milhares de vidas humanas.

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A China é um caso extremo, e dificilmente aceite no Ocidente. Lá existem centenas de milhares de câmaras de vigilância, muitas delas dotadas da capacidade de reconhecimento facial. Foi assim relativamente fácil às autoridades chinesas vigiarem o movimento dos seus cidadãos para ajudar a conter a epidemia.

Ou seja, a combinação entre uma mentalidade fortemente autoritária e o recurso ilimitado aos dados digitais (com a colaboração, sem restrições à partilha de dados, por parte das operadoras de telecomunicações, ignorando a esfera privada dos cidadãos) revelou-se extremamente eficaz no combate à contenção da epidemia.

Veremos como a Europa pós-pandémica, cuja democracia tem um dos seus pilares democráticos assente na privacidade de dados pessoais, vai reagir, periclitante e ferida como está nas suas certezas. Haverá espaço ainda para configurar as novas sociedades democráticas sem a captura excessiva dos seus direitos fundamentais?

Arlindo Mota
Presidente da Uniseti
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