Algarve, férias e uma conversa esclarecedora

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Giovanni Licciardello – Professor

 

Este ano estival, fui mais uma vez para o Algarve. Lagos, Barlavento Algarvio que é o meu preferido, em particular no troço compreendido entre Lagos e Sagres, locais onde a especulação imobiliária e as aberrações urbanísticas que encontramos infelizmente um pouco por todo o Algarve (e não só), ainda não se fizeram sentir. Em Lagos existe um cuidado acrescido com as construções, obedecendo a uma matriz urbanística que lhe confere coerência e bom gosto.

 

Ainda estive para escrever “a banhos no Algarve”, mas sinceramente banhos mesmo, só na piscina, uma vez que no mar… nem pensar.

 

Vento forte, frio e constante de Noroeste, extremamente desconfortável e água do mar gélida, não mais que 18/19ºC.

 

Com a água do mar assim tão fria, torna-se virtualmente impossível eu tomar banho. Gostaria de não ser tão friorento, mas…não consigo mesmo.

 

Uma das minhas filhas teve ter seguramente genes de pinguim ou de urso polar, porque qualquer que seja a temperatura, enfia-se logo dentro de água e aí permanece por tempo indeterminado.

 

Seja como for, nunca dou o tempo por perdido, uma vez que aproveito para passear nas praias (Meia-Praia, Praia D.ª Ana e Porto de Mós).

 

Como nunca vou de férias sem vir munido dos meus livros, uma das actividades balneares favoritas, é estar confortavelmente instalado numa cadeira de praia, à sombra, a usufruir do prazer da leitura.

 

Desta vez tinha comigo uma biografia de Mikhail Gorbachev da autoria de William Taubman, vencedor de um Prémio Pulitzer. É um livro excelente, extremamente pormenorizado, historicamente rigoroso, que aconselho vivamente a todos aqueles que apreciam o prazer da leitura, em geral, e a História Contemporânea, em particular, como é o meu caso.

 

O livro de Gorbachev serviu de mote de conversa com um casal francês que se encontrava a alguns metros do local onde estava “acampado”.

 

O senhor “meteu-se” comigo e começamos a filosofar sobre a personalidade de Mikhail Gorbachev. Eu, no meu francês “macarrónico” e os senhores arranhando ainda um português muito incipiente.

 

Então dissertámos sobre política mundial; Portugal, França, passámos em revista a “galeria dos horrores”: Trump, Putin, Maduro, Bolsonaro, Erdogan, Kim Jong Un, Órban. Depois, a coisa melhorou: De Gaulle, Francois Mitterand, Sá Carneiro, Mário Soares, etc. etc.

 

Acabámos em beleza recordando Jean Moulin, um dos elementos preponderantes da Resistência Francesa contra a ocupação nazi, durante a 2ª Guerra Mundial, que foi preso, torturado e assassinado pela tenebrosa Gestapo. Sabia de tudo, mas nunca abriu a boca.

 

Quando passámos às questões pessoais, descobri que ambos os senhores eram, tal como eu, professores. Ela, de Filosofia; ele, de História.

 

 

Reformados, decidiram vender a casa que tinham nos arredores de Paris e mudaram-se para Lagos, há cerca de um ano.

 

Clima ameno (não parece), vantagens fiscais, segurança, tranquilidade, excelente gastronomia, simpatia, enfim…tudo aquilo que torna o nosso país um local aprazível.

 

De repente, disseram-me qual o montante das respectivas reformas.

 

Um montante obsceno, mesmo tendo em conta que o nível de vida em França é superior ao de Portugal.

 

Perguntei-lhes se aquilo que auferiam chegava para viverem confortavelmente em França. Responderam-me que sim, que chegava e sobrava. Em Portugal, vivem como príncipes.

 

Quanto os informei sobre quanto aufere um professor em Portugal, desde o início até ao topo da carreira, exclamaram “Mais ce n’est pas possible!!!”.

 

É, infelizmente, trés possible.    

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