30 Novembro 2022, Quarta-feira
- PUB -
InícioOpiniãoOs Portugueses são racistas?

Os Portugueses são racistas?

Recentemente, uma jovem colombiana de 21 anos, a viver há dezasseis anos em Portugal, foi brutalmente agredida por um segurança da STCP- Sociedade de Transportes Coletivos do Porto. Chamada a polícia, nada aconteceu, pois o agressor, «com uma mão manchada de sangue e fumando um cigarro», não foi importunado. A comunicação social divulgou o caso, tendo surgido alguns artigos de opinião, em que os Portugueses são acusados de serem racistas. Fundamento para essa acusação: o seu passado de comerciantes de escravos.
Sem margem para dúvidas, tratou-se de um ato de racismo por parte do segurança, contudo, é de destacar que vários populares se manifestaram contra o agressor, foram mesmo eles que chamaram a polícia. Ora, pressupondo que esses populares são portugueses, conclui-se que perante um ato racista, vários cidadãos demonstraram não o ser; a generalização de que os Portugueses são racistas, não contribuirá apenas para o discurso do ódio que alimenta a xenofobia e o racismo?
Quanto ao «passado histórico racista dos Portugueses» – é bom lembrar que quando os homens das caravelas chegaram a África, o comércio de escravos já lá existia, praticado pelos próprios africanos- é bom lembrar que, naquele tempo, comprar e vender seres humanos era tão natural como comprar e vender animais ou coisas- já nos tempos do Império Romano, das lutas entre Cristãos e Muçulmanos, alguns dos vencidos eram escravizados; por mais que nos choque, a realidade era essa. É bom lembrar que foi no tempo do Marquês de Pombal que se aboliu a escravatura em Portugal continental e nas terras portuguesas da Índia, e que na segunda metade do século XIX, Portugal foi um dos primeiros países a acabar com a escravatura; mesmo sabendo que as práticas não se mudam por decreto, esses acontecimentos não deixaram de ser marcos importantes para acabar com a exploração do homem pelo homem. Como é bom lembrar que, até hoje, nenhuma força política defensora da xenofobia e do racismo conseguiu impor-se no Portugal democrático, país de emigração e de imigração.
Para se compreender a História é indispensável «viajar na máquina do tempo» e sentir-se romano na Roma Antiga, medieval na Idade Média, renascentista no Renascimento…Julgar os acontecimentos históricos à luz dos olhos dos nossos dias, pode dar jeito a alguns, que parecem pretender que todos nos sintamos culpados pelos «erros» praticados pelos nossos antepassados, mas em nada contribui para a veracidade histórica, para a compreensão do presente.
O termo racismo terá sido usado pela primeira vez em 1902, pela revista francesa «Revue Blanche»; no século XIX, período em que se procurou justificar as diferenças entre os seres humanos através de teorias «científicas», usava-se a palavra racialismo e não racismo. As ideias de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, gritadas pelos revolucionários franceses em 1789, e em Portugal em 1820, foram os motores das revoluções liberais; a lei deixou de ser a vontade do rei, passando a ser a vontade dos cidadãos com direito de voto. Foi a implementação progressiva da democracia, graças às revoluções liberais, que abriu caminho aos Direitos Humanos, os quais defendem que «Todos Nascemos Livres e Iguais». Em Portugal, com a ditadura salazarista verificou-se um retrocesso, pois no « Ato Colonial» defendia-se a distinção entre «indígena» e «civilizado», o que permitiu, por exemplo, o trabalho forçado, ou seja, embora fossem remunerados, os «indígenas» não se podiam recusar a trabalhar; os colonos solicitavam à Repartição dos Assuntos Indígenas o «fornecimento» de mão-de-obra e esse «fornecimento» aplicava-se a mercadorias e a homens sem qualquer distinção. Ilação a retirar: quanto menos democracia menos igualdade, liberdade, fraternidade!
Nos nossos dias, infelizmente, há escravatura, mas é ignorada por aqueles que escrevem sobre «o passado racista dos Portugueses»; por exemplo: quem ganha o salário mínimo não tem direito a um vencimento digno; por outro lado, os impostos pagos por milhões de portugueses vão contribuir, entre ouras coisas, para que o Estado pague rendas a empresas como a EDP que obtém milhões de lucros; vão contribuir para o Estado injetar milhões e milhões em bancos privados -privados para distribuir lucros – públicos para o Estado cobrir prejuízos- como afirmou o padre António Vieira, «se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem, nem mil para um só grande.»
Em vez de procurarmos explicações históricas para atos cobardes como o do segurança dos STCP, não será de nos questionarmos sobre o que cada um de nós pode fazer para termos um país mais igual para todos- portugueses ou estrangeiros- logo mais justo?

Comentários

- PUB -

Mais populares

Jovem morre esfaqueado em cilada durante convívio 

Vitima, na casa dos 20 anos, era estudante e trabalhador na Autoeuropa

Corpo do chefe dos Bombeiros Sapadores de Setúbal encontrado na Praia da Torre em Grândola

Identificação do corpo terá sido feita por familiares na morgue, onde será realizada a autópsia, não havendo, até ao momento, indícios de crime 

Acidente na A2 junto a Palmela faz um morto e dois feridos ligeiros

Colisão entre dois veículos ligeiros ocorreu ao quilómetro 24.9 da Autoestrada 2. Vítima mortal tinha 42 anos
- PUB -