8 Dezembro 2021, Quarta-feira
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Antigamente era assim…

Com a implantação da ditadura militar em 28 de maio de 1926, foram abolidas as turmas mistas aprovadas pela República de cariz democrático. Voltou o tempo de rapazes para um lado, raparigas para o outro. No decreto 13619/1927 a coeducação era considerada uma mancha negra a emporcalhar a vida na escola, um vómito sobre um quadro cheio de beleza. Já a portaria 5060/1927 definia o saber integral da mulher: ensino de coser, bordar, cozinhar, fazer barrela, olhar pelo asseio da casa, talhar, coser e conservar as peças de vestuário da família e o valor da higiene A mistura de alunos e alunas foi proibida em escolas com mais de uma sala; em escolas com espaço único, fazia-se o possível e o impossível para separar os dois sexos. Nos recreios ergueram-se muros que impediam simples conversas de crianças. Rapaz apanhado a espreitar para o pátio das meninas, apanhava, pela certa, boa quantidade de reguadas. Pôr fim à escola única republicana, escola para meninos e meninas, para homens e mulheres, para ricos e pobres, foi uma prioridade da ditadura salazarista. Em 1930, em cada cem portugueses, setenta não sabiam ler. Alguma imprensa escrita e alguma literatura eram porta-voz daqueles que, à semelhança do ditador que viria a ser conhecido por o botas, consideravam ser mais importante formar as elites que iriam ocupar lugares de destaque no regime do que ensinar camponeses a ler, escrever e contar. As crianças do campo estariam integradas no grupo das ineducáveis, referidas pelo ministro da educação, Eusébio Tamagnini, em entrevista ao «Diário de Notícias» de vinte e um de novembro de 1934. Afirmou então sua excelência que a população escolar portuguesa se podia dividir em cinco grupos: os ineducáveis, 8%; os normais estúpidos, 15%; os de inteligência média, 60%; os de inteligência superior, 15%; os notáveis, 2%. Os grandes problemas nacionais tinham de ser resolvidos pelas elites enquadrando o povo. Diga-se, pelos «notáveis». Vultos da ditadura viam a alfabetização como obra do diabo, enaltecendo o analfabetismo. Virgínia Castro Almeida na década de trinta escreveu: sabendo ler e escrever, nascem-lhes ambições: querem ir para as cidades ser marçanos, caixeiros, senhores; querem ir para o Brasil. Aprenderam a ler! Que leem? Relações de crimes, noções erradas de política; livros maus; folhetos de propaganda subversiva. Largam a enxada desinteressam-se da terra e só têm uma ambição: serem empregados públicos. Que vantagens foram buscar à escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem as letras e voltam à enxada. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nos analfabetos. Nascer camponês, ser camponês, morrer camponês; nascer senhor, ser senhor, morrer senhor. Já era assim na Idade Média. Mesmo que alguns da base da pirâmide demonstrassem possuir inteligência para não serem camponeses para sempre, o regime salazarista condenava-os a pena perpétua: nasciam, viviam, morriam, na ignorância. Aos que defendiam a vantagem da alfabetização, Salazar, que tinha a missão divina de devolver a nação à igreja católica, ripostava: sim, desde que o livro seja o catecismo. Era o regresso da união Estado-Igreja. O rebanho tresmalhado desde 5 de outubro de 1910 regressaria aos campos da Santa Sé.

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