20 Agosto 2022, Sábado
- PUB -
InícioOpiniãoD. Manuel Martins fez-me “nascer de novo”

D. Manuel Martins fez-me “nascer de novo”

Antes de mais peço desculpa aos colaboradores dos órgãos de comunicação social por não ter acedido ao pedido para exprimir a minha reação à partida deste mundo de D. Manuel Martins. Não o fiz por ter perdido a capacidade de reação – que ainda se mantém muito fragilizada – e por saber que tudo o que pudesse dizer naqueles dias seria envolto numa descontrolada emoção. Por outro lado, só o silêncio total me preenchia a alma.
A morte é uma realidade intransponível e, para nós cristãos, a única porta de entrada na Vida onde não mais haverá “luto nem dor”. Eu creio, firmemente, que assim é. Mas isso não impede que a partida deste mundo, de quem amamos, não nos traga sofrimento e nos inunde os olhos de lágrimas de saudade. O mesmo aconteceu ao próprio Cristo.
No próximo dia 26 de outubro completam-se 42 anos de uma relação humana que começou por ser, simplesmente, eclesial, ou seja, de um bispo com um, entre muito outros, diocesanos para ir crescendo na amizade até chegar à condição equiparada à de amor filial.
A minha vida biológica, a educação alicerçada nos conhecimentos académicos e nos valores humanos, a iniciação na prática da religião católica, devo tudo isto aos meus pais que trabalharam muito e honradamente para ser quem tenho sido até agora. Mas D. Manuel, no plano religioso, fez- me nascer de novo. Deixei de ser, meramente, religioso e passei a trilhar os caminhos que os cristãos devem esforçar-se por seguir. Quando esta transformação se deu, tudo se tornou mais difícil, mas a fé que professo encontrou o seu verdadeiro sentido; a esperança deixou de ser uma atitude de “braços cruzados” à espera que do “céu tudo caia”, mas o dinamismo de quem tem um ideal “faz a hora, não espera acontecer”; a prática da caridade passou a ser um combate pela justiça e não uma forma de anestesiar a má consciência de um viver egocêntrico e egoísta. Acima de tudo, foi D. Manuel que me deu a conhecer o significado autêntico e o valor incomensurável da dignidade de cada ser humano.
Foram anos de uma relação humana fortíssima e muito verdadeira. Nunca teve receios do meu “protagonismo” social e eclesial, porque tinha a plena convicção de que era “maior” do que eu. Ficam na minha memória e no meu coração os bons e maus momentos vividos juntos ou narrados mutuamente e que tanto me enriqueceram.
A minha amizade com D. Manuel tornou-se num autêntico relacionamento familiar, em toda a sua profundidade, que uniu estreitamente a sua e a minha família. Tenho evidências claríssimas desta verdade. Por isso, nem a morte jamais quebrará esta ligação que, agora, passou a ter o tamanho da distância do Céu à Terra, até ao dia em que Deus nos fundir aos dois, e a todos os que nos amaram e amámos neste mundo, a Ele no seu Eterno Abraço.

Comentários

Eugénio Fonseca
Presidente da Cáritas Portuguesa
- PUB -

Mais populares

Mulher morre em colisão entre dois veículos em Grândola

Uma colisão frontal entre dois veículos ligeiros na Estrada Nacional 261, no cruzamento do Carvalhal, provocou, esta tarde, um morto e dois feridos graves.

Ana Catarina Gonçalves: A grandolense que arriscou e conseguiu montar um ‘império’ na vertente das explicações

Com apenas 21 anos, começou a acompanhar algumas crianças por brincadeira. Hoje, passados cinco anos, emprega três dezenas de professores

Acidente de viação no Montijo provoca três mortos

Colisão frontal provocou a morte de dois homens, de 26 e 32 anos, e de uma mulher, de 24 anos
- PUB -