A noite ainda mora em Sines. O vento arrasta o cheiro a maresia pelas ruas vazias. Mais adiante, é possível ver uma varanda voltada para o mar, onde as malvas crescem desordenadas. Ali, onde a areia encontra o silêncio, continua a viver o poeta que escreveu contra o medo. Al Berto pertence à noite. Escrevia nela, respirava-a e deixava que o escuro lhe acendesse as palavras. Dizia que a poesia era um lugar de sombra e de iluminação, onde o inútil se separa do essencial. Talvez por isso escrevesse: para descobrir o que ainda faltava compreender. Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra, no dia 11 de janeiro de 1948.
Com apenas um ano, muda-se para Sines, onde cresce numa família com raízes inglesas. Desde pequeno, viveu rodeado de livros; “Entraram na minha vida como passei da papa para o bife”, recordava, com humor. O pai e a mãe leram durante toda a vida, e cedo aprendeu que ler era outra forma de sentir prazer; lia sempre deitado na cama, e um livro que não o conquistasse nas primeiras páginas não merecia lugar na estante. Foi assim que redescobriu Cesário Verde, o “poeta-fotógrafo”, Fernando Pessoa — sobretudo Álvaro de Campos — e Eugénio de Andrade, a quem chamou descoberta. “A minha aprendizagem faz-se por uma espécie de amor e paixão por outros autores”, confessou. A sua primeira paixão nasce entre a escultura e a pintura. Em casa, moldava bonecos de argila, lembrança que os amigos de infância ainda guardam, muito antes de chegar à Escola António Arroio e à Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa.
Saiu de Portugal aos dezoito anos e partiu em direção a Bruxelas. Era uma decisão precisa. Queria estudar pintura, ser artista, seguir o rasto de Picasso. Longe da língua portuguesa, levou consigo apenas um livro — “Pela Estrada Fora” de Jack Kerouac— que foi apreendido pela PIDE dois dias depois de sair.
Com o passar do tempo, trocou o barro pelas palavras. Pintar já não bastava, era preciso tocar o invisível, dar forma ao que o perturbava. “A escrita vem de uma perturbação”. Para Al Berto, o momento da criação é terrível. Afirma que ninguém escreve porque respira, nem porque anda, e que o que surge no papel é apenas um vestígio daquilo que alguma vez sentira. A poesia, para ele, nasce do corpo, da experiência de viver. “Se eu não viver, não há escrita”, dizia. Al Berto assumia pertencer “a uma linhagem de poetas onde a escrita passa pelo corpo”, sem arrogância nem falsa modéstia. Estava tão bem, tão dentro de si e do seu corpo, que escrevia para lá da gramática, para lá da linguagem: “Por que não construir de outra maneira, rebentar com a gramática, com a sintaxe, tudo?”. Quando regressa, em 1974, reencontra-se com a língua e com o país que deixara para trás. Escreve o seu primeiro livro, “À Procura do Vento num Jardim d’Agosto”, e descobre na poesia o espaço onde tudo cabe: o amor e a perda, o corpo e o medo.
O reconhecimento literário veio em 1987, com o Prémio P.E.N [prémio literário instituído pelo P.E.N. Clube Português], que disse ter tido um sabor especial. A vida de Al Berto foi uma tensão constante entre o que se sente e o que se consegue transpor para o papel.
Hoje, a noite em Sines guarda a sua presença. A varanda voltada para o mar mantém o rasto do seu olhar, e as malvas crescem como testemunhas de uma vida que ousou ir além do esperado. Permanece a sensação de um poeta que desafiou regras e abriu caminhos que poucos ousaram percorrer. Al Berto pertence, para sempre, à noite.
Texto publicado na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS