Sílvio Dedeiras nasceu a 13 de julho de 1966, no Sabugueiro, uma pequena aldeia do concelho de Arraiolos, onde as tradições rurais moldavam a vida quotidiana. Cresceu num Portugal ainda profundamente marcado pela pobreza no interior e pela necessidade de pôr as crianças a trabalhar cedo.
Aos nove anos, enquanto muitos colegas ainda se perdiam em jogos improvisados nas ruas de terra, já passava os verões a guardar gado. Aprendeu cedo o peso da responsabilidade — e o silêncio dos campos. A infância curta deu lugar a uma adolescência apressada.
Aos 13 anos, trocou o Sabugueiro por Pegões, onde começou a trabalhar na restauração. O novo ambiente era mais exigente e afastava-o das rotinas do campo, mas não da saudade. A ligação à terra natal era tão forte que, sempre que regressava para uma visita, arranjava forma de prolongar a estadia: fazia de propósito para perder o autocarro de volta. O regresso ao trabalho era sempre acompanhado de lágrimas, “como se deixasse para trás uma parte de mim”.
Em maio de 1987, prestes a completar 21 anos, partiu para a tropa — um destino comum entre os jovens da época, mas que significava, muitas vezes, a separação definitiva da vida que conheciam. Nesse mesmo ano,
porém, conheceu a mulher que viria a acompanhar-lhe o resto do percurso.
Casaram em 1992, num período ainda marcado por incertezas económicas e por empregos temporários que dificultavam qualquer estabilidade. Até ao início dos anos 2000, a vida foi feita de avanços contidos e dificuldades persistentes. Com três irmãos e poucas oportunidades, foi atravessando diversos trabalhos e lugares, tentando garantir que nada faltava à família.
A mudança decisiva chegou em 2001: deixaram o interior e rumaram a Setúbal, cidade que lhes ofereceu novas possibilidades — e um horizonte mais aberto. Foi lá que nasceram as duas filhas e onde encontrou o sossego que nunca tivera. Setúbal transformou-se num espaço de reencontro, não com o passado, mas consigo próprio. “Não troco Setúbal por nada”, diz hoje. As pessoas, mais diretas e generosas, o ritmo da cidade e, sobretudo, o rio Sado, tornaram-se parte da sua rotina.
Gosta de observá-lo nos dias de vento, quando a água parece tocar os barcos ancorados, ou nas manhãs mais calmas, em que o silêncio se estende pela avenida como um convite a abrandar.
Entre o Sabugueiro da infância dura e Setúbal da maturidade tranquila, Sílvio Dedeiras carrega uma vida feita
e esforço, deslocações e recomeços.
Uma vida comum a muitos portugueses da sua geração, que cresceram depressa demais, trabalharam desde cedo tiveram de procurar longe aquilo que a terra natal não lhes podia dar.
Texto publicado na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS