Foi com esta frontalidade, que muitos chamariam de desatino e outros de coragem, o que Luiz Pacheco viveu e escreveu
“Vão para a puta que os pariu!”. Foi com esta frontalidade, que muitos chamariam de desatino e outros de coragem, o que Luiz Pacheco viveu e escreveu. Filho de Setúbal, nascido em 1925, foi o escritor que quebrou regras e irritou gerações. Acreditava que a verdade, por mais suja que fosse, devia ser dita, e foi isso que fez até ao fim.
Pacheco nunca quis ser herói, preferiu ser livre e essa liberdade custou-lhe tudo. Viveu censurado e desprezado por muitos dos seus contemporâneos, mas nunca deixou de escrever. “Ninguém quer marginalizar-se, ninguém quer viver mal, ninguém quer passar mal. Só uma pessoa com aberrações mentais, um louco”, disse uma vez. E era nessa loucura que encontrava espaço para a sua verdade.
Editor e provocador literário, foi uma das figuras mais polémicas da cultura portuguesa. Criou a editora Contraponto, publicando autores como Herberto Helder, Mário Cesariny e Natália Correia, dos quais mantinha relações próximas. Destes nomes que, mais tarde, seriam considerados pilares da literatura nacional, o próprio Pacheco permaneceu na sombra, alimentando-se de sarcasmo e crítica.
“Luíz Pacheco será, provavelmente, o escritor português que mais viveu, pensou, refletiu sobre o conceito de libertinos, a experiência da libertinagem, o relevo da libertinagem da cultura portuguesa”, afirma Rui Sousa, investigador e autor do livro Do Libertino. Para Rui, este autor foi “uma força de provocação e resistência num país que ainda vivia amarrado à moral e à censura.”
Nos anos 60, Pacheco foi julgado e condenado por perversão: “Ele assumiu com uma coragem que outros não tiveram, esse gesto de provocar” explica Rui Sousa. Essa audácia valeu-lhe a reputação de libertino e de marginal, mas também o reconhecimento dos que viam na sua voz uma forma de verdade.
Para Sofia, colega de Rui num projeto sobre censura e vanguarda, “Luiz Pacheco é um autor de uma clareza absoluta e de uma erudição surpreendente” Ela sublinha que “tendo uma educação religiosa fortíssima, soube olhar criticamente para esse mundo e transformá-lo numa crítica viva à opressão”.
Em Comunidade (livro de Luiz Pacheco), o escritor deixa uma das suas passagens mais comoventes: “A cama é larga, de madeira, alta, gingona, parece uma jangada… Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver; antes a figurar-se” (Goodreads citação de Comunidade). A imagem da “jangada” acompanha toda a sua obra, símbolo de um homem que navegou entre o génio, o abismo, a fome e a lucidez.
O erotismo, tantas vezes usado para o atacar, era para ele uma forma de conhecimento. “Sou um tipo muito mais sensual que sexual. O que eu arranjei durante a vida foram complicações sexuais que hoje eram inteiramente impossíveis,” disse numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro. A sensualidade era, para Pacheco, um espaço de resistência às ideologias e censura da época. Mas o brilhantismo de Pacheco não estava apenas no escândalo, estava na linguagem. “Os textos dele são da melhor prosa portuguesa do século XX”, defende Rui Sousa. “Há ali uma honestidade que desarma e uma emoção imediata”. O investigador lembra uma aula em que leu O que é o Neo-Objecionismo, texto em que o escritor descreve a miséria da sua vida, e uma aluna saiu a chorar. “Provocou uma reação imediata”.
Luiz Pacheco morreu em 2008, aos 83 anos, pobre, mas com ideais lúcidos. Setúbal, a sua cidade natal, guarda-o na memória como um símbolo de resistência e de autenticidade. Entre os seus papéis, deixou um aviso que continua atual: ser livre é o maior dos escândalos.
Texto publicado por Lara Rodrigues e Sofia Marques na edição especial da revista ‘Perfil Local’ da ESE/IPS